{"id":3412,"date":"2025-05-29T18:35:47","date_gmt":"2025-05-29T18:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.raulmourao.com\/?page_id=3412"},"modified":"2025-05-29T19:05:29","modified_gmt":"2025-05-29T19:05:29","slug":"volume-vivo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.raulmourao.com\/en\/expo\/volume-vivo\/","title":{"rendered":"VOLUME VIVO"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-cover alignfull has-parallax exhibition-submenu mb-0 mt-0\" style=\"min-height:500px;aspect-ratio:unset;\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-3416 size-full has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/www.raulmourao.com\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/91A_4023RM_VolumeVivo-scaled.jpg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<h1 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-ast-global-color-5-color has-text-color has-link-color wp-elements-63b9dbae4951031c3094fc72b605c018\">VOLUME VIVO<\/h1>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-ast-global-color-5-color has-text-color has-link-color wp-elements-c671b062badfd144f954dc4e7f5d4f64\">2024 &#8211; SALVADOR, ROBERTO ALBAN GALERIA<\/h6>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-62f96f40 wp-block-buttons-is-layout-flex\" style=\"margin-top:0;margin-bottom:0;padding-top:var(--wp--preset--spacing--40);padding-bottom:var(--wp--preset--spacing--40)\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-align-center wp-element-button\" href=\"#foto\">VIEWS<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-53cf6d22 wp-block-columns-is-layout-flex\" id=\"txt\" style=\"margin-top:var(--wp--preset--spacing--80);margin-bottom:var(--wp--preset--spacing--80);padding-top:0;padding-bottom:0\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:50%\">\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>A exposi\u00e7\u00e3o Volume Vivo \u00e9 dedicada \u00e0 mem\u00f3ria de Cristina Alban, amiga e incentivadora de Mour\u00e3o e figura chave no cen\u00e1rio das artes visuais da cidade de Salvador.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na ter\u00e7a-feira, 22 de outubro de 2024, \u00e0s 15 horas, o artista carioca Raul Mour\u00e3o recebeu em seu atelier na Lapa o curador mexicano Pablo Le\u00f3n de la Barra, que vive no Rio para uma conversa sobre&nbsp; a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Volume Vivo&#8221;. Sentados entre duas grandes mesas que sustentam diversos trabalhos em andamento e rodeados por algumas das obras da exposi\u00e7\u00e3o, Mour\u00e3o e de la Barra discutiram n\u00e3o apenas os detalhes de &#8220;Volume Vivo&#8221;, mas tamb\u00e9m a pr\u00e1tica art\u00edstica de Mour\u00e3o e o afeto que ambos nutrem pela cidade de Salvador. A seguir, alguns trechos selecionados dessa conversa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo Le\u00f3n de la Barra<\/strong><br>\u201cAssim como as grades permitem ver o que est\u00e1 do outro lado, quem est\u00e1 dentro consegue ver um pouco do mundo de fora, e isso se torna uma esp\u00e9cie de instrumento de media\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 aquela ideia da pintura como janela \u2014 a pintura cl\u00e1ssica que \u00e9 uma janela para outro mundo \u2014 mas sim a grade como um instrumento de media\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVoc\u00ea est\u00e1 repensando essa rela\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 o desenho, o que \u00e9 a pintura, e tamb\u00e9m pode fazer o mesmo com a escultura. No outro dia, quando visitei seu est\u00fadio, voc\u00ea comentou que s\u00e3o pinturas feitas por escultores. Agora procuro a cita\u00e7\u00e3o exata do que voc\u00ea disse, mas a ess\u00eancia foi que, &#8220;na pintura, minha ferramenta n\u00e3o \u00e9 o pincel, \u00e9 como se na extens\u00e3o de minha m\u00e3o existisse um alicate.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul Mour\u00e3o<\/strong><br>\u201cMinha rela\u00e7\u00e3o com essa exposi\u00e7\u00e3o inaugura uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo com a cidade, uma homenagem a ela. Ela surge a partir de uma certa energia que atravessa minha rela\u00e7\u00e3o com Salvador. No entanto, tenho um respeito profundo pela cidade e me sinto como se estivesse sempre iniciando uma rela\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs fotos das grades retornam, mas n\u00e3o mais como um coment\u00e1rio sobre seguran\u00e7a p\u00fablica. Agora, s\u00e3o um coment\u00e1rio sobre o grafismo da cidade, sobre um desenho que se acopla \u00e0 arquitetura de forma mais po\u00e9tica, e n\u00e3o brutalista.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo Le\u00f3n de la Barra<\/strong><br>\u201cRaul, o artista, como criador de estruturas que n\u00e3o s\u00e3o apenas estruturas f\u00edsicas ou objetos de arte, mas tamb\u00e9m estruturas de trabalho, estruturas de a\u00e7\u00e3o e estruturas de exposi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cDe alguma maneira, voc\u00ea funciona como um artista-curador explicitamente. N\u00e3o sei se como curador, mas voc\u00ea \u00e9 um pouco um agitador de tudo isso, permitindo que todas essas vozes criem polifonias, onde podem coexistir.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul Mour\u00e3o<\/strong><br>\u201cEssa rela\u00e7\u00e3o com o ferro e a tradi\u00e7\u00e3o do a\u00e7o \u00e9 algo que compartilho. A minha grade que est\u00e1 l\u00e1 \u00e9 uma grande pintura colorida, n\u00e3o \u00e9 mais um objeto f\u00edsico, como a grade que observamos l\u00e1 embaixo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA exposi\u00e7\u00e3o re\u00fane a pesquisa das grades de prote\u00e7\u00e3o dos casar\u00f5es antigos e dos bairros hist\u00f3ricos, em di\u00e1logo com minha s\u00e9rie de fotografias de grades. Em Salvador, por\u00e9m, encontro um outro tipo de desenho ornamental e decorativo, uma serralheria mais leve, com materiais mais simples e que exibe desenhos exagerados, um pouco al\u00e9m do necess\u00e1rio para a seguran\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo Le\u00f3n de la Barra<\/strong><br>\u201cO que acho interessante \u00e9 como existe essa rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria do material do ferro. Al\u00e9m disso, muitas vezes o que parece ser ornamenta\u00e7\u00e3o nas janelas servia para transmitir outras hist\u00f3rias. Por isso, acho que seria uma linha interessante de trabalho que ainda d\u00e1 para continuar explorando.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul Mour\u00e3o<\/strong><br>\u201cAs esculturas cin\u00e9ticas que estar\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o t\u00eam um certo desenho que, para mim, internamente, remete a um balan\u00e7o da cidade, a uma musicalidade que percebo quando estou l\u00e1, de f\u00e9rias, nas festas ou nos ensaios dos blocos e apresenta\u00e7\u00f5es musicais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<details class=\"wp-block-details is-layout-flow wp-block-details-is-layout-flow\"><summary>Para acessar a entrevista na \u00edntegra, clique aqui.<\/summary>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">VOLUME VIVO<\/h2>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\" style=\"line-height:1.5\">Uma conversa entre Pablo Le\u00f3n de la Barra e Raul Mour\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na ter\u00e7a-feira, 22 de outubro de 2024, \u00e0s 15 horas, o artista carioca Raul Mour\u00e3o recebeu em seu atelier na Lapa o curador mexicano Pablo Le\u00f3n de la Barra, que vive no Rio para uma conversa sobre&nbsp; a exposi\u00e7\u00e3o Volume Vivo. Sentados entre duas grandes mesas com diversos trabalhos em andamento e rodeados por algumas das obras da exposi\u00e7\u00e3o, Mour\u00e3o e de la Barra discutiram n\u00e3o apenas os aspectos de Volume Vivo, mas tamb\u00e9m a pr\u00e1tica art\u00edstica de Mour\u00e3o e o afeto que ambos nutrem pela cidade de Salvador. A seguir, a transcri\u00e7\u00e3o dessa conversa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Estamos aqui reunidos para falar sobre a exposi\u00e7\u00e3o Volume Vivo que voc\u00ea realizar\u00e1 em Salvador, na galeria do nosso querido amigo Roberto Alban. A exposi\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 aberta daqui a alguns meses, j\u00e1 est\u00e1 quase pronta, n\u00e3o? O trabalho est\u00e1 caminhando. Gostaria tamb\u00e9m de dedicar esta conversa \u00e0 mem\u00f3ria da nossa querida Cristina Alban, que era uma grande amiga sua e minha e companheira da galeria, e que nos deixou h\u00e1 um ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, na minha primeira visita a Salvador, em 2016 ou 2017, fui convidado pelo Roberto e pela Cristina para conhecer mais a fundo a cena art\u00edstica local. Eu j\u00e1 havia estado em Salvador outras vezes, mas de forma mais tur\u00edstica, pesquisando sobre Lina Bo Bardi e outros pontos. Mas foi nessa ocasi\u00e3o, com o convite de ambos, que passei uma semana visitando artistas e conhecendo a cena art\u00edstica da cidade. Foi ali que comecei a construir uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o, pelo menos uma vez por ano eu vou para l\u00e1 para realizar pesquisas, visitar amigos e fortalecer essa conex\u00e3o. Desenvolvi uma amizade muito importante com o Ayrson Her\u00e1clito, al\u00e9m de outros artistas, curadores e galeristas. De certa forma, Salvador se tornou uma refer\u00eancia fundamental tanto para o meu processo de pensamento quanto para minha compreens\u00e3o do Brasil. Entendo agora o Brasil como um pa\u00eds muito mais complexo e cheio de nuances que, como estrangeiro, eu n\u00e3o conseguia perceber de imediato. Essas visitas anuais (\u00e0s vezes at\u00e9 duas vezes ao ano) me permitiram ampliar meu entendimento do Brasil, e sou muito grato aos amigos de Salvador, que me permitem acessar esse conhecimento e o compartilham comigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Queria, ent\u00e3o, come\u00e7ar falando um pouco sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com Salvador: como voc\u00ea chegou \u00e0 cidade, como seu trabalho se transformou a partir dessa conex\u00e3o. Depois, seguimos falando da exposi\u00e7\u00e3o, o que ela vai trazer e do seu trabalho de forma mais ampla. Vamos come\u00e7ar, ent\u00e3o, com o ponto central, que \u00e9 Salvador, e avan\u00e7amos a partir da\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>\u00c9 realmente muito oportuno come\u00e7armos hoje falando sobre o trabalho e sobre essa exposi\u00e7\u00e3o em Salvador, na Galeria Alban, que hoje leva esse nome. E agrade\u00e7o por celebrar e lembrar da Cristina. De fato, temos essa coincid\u00eancia, n\u00e3o \u00e9? Eu tamb\u00e9m devo a minha experi\u00eancia com Salvador \u2013 de frequentar, de visitar e, hoje, de ter uma rela\u00e7\u00e3o especial com a cidade \u2013 \u00e0 Cristina e ao Roberto. Foi como voc\u00ea mencionou, em 2006? O mesmo ano que no meu caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Foi em dois mil e dezesseis (2016).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>No meu caso, ent\u00e3o, foi um pouco antes, em 2012. Foi nesse ano que eles invadiram esta sala aqui com o Afonso Costa. Marcaram uma visita e anunciaram que queriam abrir uma galeria de arte contempor\u00e2nea em Salvador. J\u00e1 atuavam no mercado de arte h\u00e1 muitos anos, tanto com arte quanto com antiguidades, mas queriam, naquele momento, dar mais destaque e fortalecer sua atua\u00e7\u00e3o no mercado de arte contempor\u00e2nea. Inclusive, j\u00e1 estavam construindo o pr\u00e9dio da galeria, que estava bem adiantado; eles at\u00e9 mostraram o projeto e algumas fotos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o Afonso Costa, um amigo em comum, que fez essa ponte. Eles tinham um projeto com artistas que eu j\u00e1 conhecia, como a Beth Jobim, a Gabriela Machado, o \u00c1lvaro Seixas, e eu acabei me identificando tanto com eles quanto com os artistas. O Afonso estava assessorando o projeto, e aceitei o convite. Minha exposi\u00e7\u00e3o acabou sendo a primeira individual da galeria. Eles inauguraram com uma exposi\u00e7\u00e3o coletiva da qual eu participei, e, em 2013, minha exposi\u00e7\u00e3o foi a primeira individual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Ent\u00e3o essa ser\u00e1 a sua terceira exposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Sim, essa ser\u00e1 minha terceira exposi\u00e7\u00e3o individual na Alban. Em 2021, oito anos depois da primeira, realizei a segunda e, agora, em 2024, farei a terceira. E foi justamente em 2013 que comecei a visitar Salvador com mais frequ\u00eancia. Curiosamente, cheguei \u00e0 cidade no mesmo dia em que o Selar\u00f3n morreu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu embarquei j\u00e1 sabendo da not\u00edcia: ele havia sido encontrado morto no dia em que saiu uma mat\u00e9ria no jornal sobre amea\u00e7as de morte que ele estava recebendo. A mat\u00e9ria estava na primeira p\u00e1gina; eu era assinante do jornal, li a not\u00edcia, peguei um t\u00e1xi para o aeroporto e, quando desembarquei, ele j\u00e1 estava morto. No embarque, eu ainda tinha lido sobre as amea\u00e7as, e assim que cheguei, o Fred Coelho comentou: \u201cPoxa, que merda, o lance do Selar\u00f3n.\u201d E eu perguntei: \u201cO que aconteceu?\u201d Ele respondeu: \u201cSelar\u00f3n morreu.\u201d E eu falei: \u201cComo assim? Ele n\u00e3o morreu, a not\u00edcia era sobre as amea\u00e7as!\u201d E ele disse: \u201cN\u00e3o, morreu mesmo. Est\u00e1 morto!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse era o clima quando fui me encontrar com Cristina e Roberto Alban. Eu estava chorando, porque o Selar\u00f3n era meu vizinho, meu amigo. N\u00f3s dois \u00e9ramos os \u00fanicos artistas na rua naquela \u00e9poca. Hoje h\u00e1 outros, como o Eduardo Berliner, a Laura Lima, o Cabelo, mas naqueles tempos, \u00e9ramos s\u00f3 eu e ele. N\u00f3s sa\u00edamos juntos, tom\u00e1vamos cerveja, apresent\u00e1vamos outros artistas um ao outro. Lembro de um dia estar com Daniel Acosta e apresentar o Selar\u00f3n a ele; outra vez, estava com Marcelo Cidade e Andr\u00e9 Komatsu, e fiz o mesmo. Ele era algu\u00e9m do meu conv\u00edvio, um vizinho, um \u00edcone da cidade e da rua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquele dia foi tr\u00e1gico. Deveria ter sido um dia festivo, em que eu conheceria a galeria pela primeira vez e Roberto e Cristina haviam planejado me mostrar a cidade, com visitas \u00e0 Igreja do Senhor do Bonfim, \u00e0 Ponta do Humait\u00e1 e outros lugares. Mas acabou sendo um dia muito confuso. Tive que dar entrevistas, escrever, contestar, denunciar a neglig\u00eancia do poder p\u00fablico municipal e estadual. Foi um in\u00edcio conturbado da minha chegada em Salvador. Voltei para casa ainda naquele mesmo dia, nem cheguei a dormir. Mas foi ali que come\u00e7ou minha amizade com a Cristina e o Roberto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Interessante, porque o Selar\u00f3n tamb\u00e9m tem uma rela\u00e7\u00e3o com Salvador. Ele aparece como pintor em v\u00e1rios quadros da cidade, e chegou a passar pela Sorveteria da Ribeira, onde h\u00e1 obras dele at\u00e9 hoje. Inclusive, agora, olhando para voc\u00ea aqui na minha frente com o amarelo e o vermelho ao fundo, penso nas cores do Selar\u00f3n, n\u00e3o? N\u00e3o sei se \u00e9 coincid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Sim, e s\u00e3o essas as cores que estar\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o. Aqui est\u00e3o os desenhos que deram origem \u00e0s pinturas que v\u00e3o ser exibidas. Eles t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o com as grades de Salvador, com as grades do Rio, as janelas, as setas e sinaliza\u00e7\u00f5es. Foi assim que, ao chegar l\u00e1, essa amizade come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca, eu conhecia Salvador muito superficialmente. Mas, de l\u00e1 para c\u00e1, constru\u00ed uma rela\u00e7\u00e3o parecida com a sua, de visitar regularmente, criar uma rede de amigos e desenvolver um afeto pela cidade, com essa vontade de sempre voltar. Esse v\u00ednculo se consolidou mesmo a partir de 2021. Em 2013, quando fiz minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, logo em seguida me mudei para Nova York. Visitei Salvador no in\u00edcio do ano, mudei-me em abril e inaugurei a exposi\u00e7\u00e3o em setembro. Assim, essa minha primeira exposi\u00e7\u00e3o na Galeria Alban foi realizada no Brasil, mas eu j\u00e1 morava em Nova York. Vim de l\u00e1 para Salvador especialmente para a inaugura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Quanto tempo voc\u00ea morou em Nova Iorque?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Eu morei em Nova Iorque em 2013, 2014 e 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>No mesmo tempo que eu estava l\u00e1, ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Voltei ao Brasil em dezembro de 2015. Em 2021, fiz minha segunda exposi\u00e7\u00e3o, e foi a partir desse momento que minha rela\u00e7\u00e3o com Salvador se fortaleceu. Desde ent\u00e3o, visito a cidade mais de uma vez ao ano, como voc\u00ea mencionou. Salvador \u00e9 uma cidade inspiradora, carregada de uma hist\u00f3ria muito mais complexa que qualquer outra cidade brasileira, em todos os sentidos: na desigualdade, na preserva\u00e7\u00e3o e na complexidade urban\u00edstica. \u00c9 uma cidade grande, com uma economia e popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m grandes, e que, nos \u00faltimos anos, vem passando por uma transforma\u00e7\u00e3o na cena cultural e art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma cidade exuberante, com uma hist\u00f3ria cultural e art\u00edstica marcante. Ainda assim, sempre me sinto como um estrangeiro ali. Frequento a cidade, tenho uma rede de amigos, conhe\u00e7o meus lugares preferidos, como o Catiguria no Ceasinha, o Di Janela, a feira de S\u00e3o Joaquim; tem a cerveja aqui e ali, uma praia escondida que conheci, os passeios pelo Bonfim, as sa\u00eddas para fotografar a arquitetura, as janelas, as grades. Sinto que me conecto com a energia da cidade, e ela me alimenta, mas ainda assim me vejo como um visitante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, acredito que esta exposi\u00e7\u00e3o tenha um diferencial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s anteriores. Nas outras, eu levava uma s\u00e9rie que estava desenvolvendo e que poderia exibir em qualquer lugar, mas escolhi mostrar em Salvador. J\u00e1 nesta exposi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um pouco do meu olhar sobre a cidade. Re\u00fane a pesquisa das grades de prote\u00e7\u00e3o dos casar\u00f5es antigos e dos bairros hist\u00f3ricos, em di\u00e1logo com minha s\u00e9rie de fotografias de grades. Em Salvador, por\u00e9m, encontro um outro tipo de desenho ornamental e decorativo, uma serralheria mais leve, com materiais mais simples e que exibe desenhos exagerados, um pouco al\u00e9m do necess\u00e1rio para a seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso trouxe outras figuras para dentro dessa geometria brutal, com ap\u00eandices de arquitetura que servem para a prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio. No Rio, essas prote\u00e7\u00f5es v\u00eam junto de guaritas e c\u00e2meras de seguran\u00e7a; j\u00e1 em Salvador, elas se integram \u00e0 qualidade arquitet\u00f4nica local, sendo feitas por artes\u00e3os do ferro. Esse aspecto foi impregnando o trabalho e talvez tenha sido o primeiro momento desse processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa cole\u00e7\u00e3o de fotos, que depois se transformou em uma s\u00e9rie de desenhos e, por fim, nas pinturas, come\u00e7ou sem a inten\u00e7\u00e3o de ser uma obra em minha pesquisa. As fotos vieram do impulso de registrar, sem planos pr\u00e9vios de exibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o velho impulso que a gente tem. Eu costumo comparar com o m\u00fasico que toca viol\u00e3o: ele chega em casa e tem vontade de tocar, e, enquanto est\u00e1 tocando e estudando, \u00e0s vezes sai uma m\u00fasica. \u00c9 mais ou menos assim. Eu fa\u00e7o essas fotos como uma anota\u00e7\u00e3o visual. Quando estou enquadrando, n\u00e3o penso: \u201cVou ampliar isso em dois por setenta em metacrilato para exibir dessa ou daquela forma\u201d. N\u00e3o, \u00e9 mais uma anota\u00e7\u00e3o, um desenho, um desejo de criar ou guardar uma imagem \u2013 um peda\u00e7o da arquitetura, da cidade. Pode ser que um dia aquilo inspire um desenho, uma instala\u00e7\u00e3o, algo nesse sentido. Foi o mesmo com os desenhos. Na verdade, eles come\u00e7aram como um presente de anivers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Antes de entrarmos nos desenhos, vamos dar uma pausa para separar melhor a quest\u00e3o da foto e da imagem. Minha pergunta vai justamente at\u00e9 esse ponto: o que mudou nesses onze anos, de 2013 a 2024? A cidade influenciou seu trabalho de alguma forma? Acho que voc\u00ea come\u00e7ou a responder agora, ao comparar a primeira exposi\u00e7\u00e3o, que foi praticamente concebida e pensada aqui, e a segunda exposi\u00e7\u00e3o. Mas agora, com a terceira, parece que a situa\u00e7\u00e3o se inverte, ou se desloca mais para o outro lado, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><br>Acho que sim, Pablo. Por exemplo, eu poderia ter dado mais tempo, j\u00e1 que minha \u00faltima exposi\u00e7\u00e3o foi em 2021, e agora estamos em 2024, ent\u00e3o ser\u00e3o tr\u00eas anos. Poderia esperar mais, mas quero passar janeiro com os amigos em Salvador, estar l\u00e1 pelo menos uma parte do m\u00eas, e quero expor l\u00e1 o m\u00e1ximo de vezes poss\u00edvel. Falei para o Alban: \u201cReserva para mim de dezembro a fevereiro! Quero estar l\u00e1, quero estar l\u00e1!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea tamb\u00e9m tem essa rela\u00e7\u00e3o com a cidade, essa vontade de fazer parte, de estar conectado a um lugar que escolhemos e com o qual temos uma rela\u00e7\u00e3o afetuosa. Eu acredito muito no afeto no campo da arte. Muitas decis\u00f5es que tomamos aqui s\u00e3o uma quest\u00e3o de gosto, sim. Gosto de trabalhar coletivamente com outros artistas, de frequentar ateli\u00eas, de estar mais presente na cena art\u00edstica da cidade, de conhecer e mostrar o que estou fazendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 o desejo de fazer a obra circular e, principalmente, circular nessa cidade que faz parte da minha vida afetiva desde 2013, mas de forma mais intensa a partir de 2021. Salvador tamb\u00e9m tem para mim um territ\u00f3rio emocional. Foi ali que, em 2021, comecei a namorar a&nbsp; Isabela Capeto, e passamos janeiro juntos, comemorando o anivers\u00e1rio dela em 2022 e 2023. Em 2024, voltei \u00e0 mesma casa, agora sem ela, mas com meu filho. Salvador, para mim, \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o de mem\u00f3rias e emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Teve ent\u00e3o uma reconcilia\u00e7\u00e3o ou\u2026?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Mesmo que a gente tivesse se separado, eu iria mencionar isso, pois essa s\u00e9rie eu fiz para ela. Assim como as fotos, elas s\u00e3o resultado do desejo de produzir algo do campo visual que n\u00e3o est\u00e1 ligado a uma programa\u00e7\u00e3o do mercado ou a estrat\u00e9gias de carreira. N\u00e3o trabalho com isso. Sou p\u00e9ssimo nesse aspecto; n\u00e3o sou do lobby nem do networking. Minha gest\u00e3o \u00e9 ca\u00f3tica. Aqui tem um prego, aqui tem isso e aquilo, porque vou juntando as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sei trabalhar gerindo o caos, mas sou ca\u00f3tico por natureza. Essa s\u00e9rie surgiu como um presente de anivers\u00e1rio. Eu queria fazer um presente \u00e0 m\u00e3o e levei um conjunto para Salvador, colocando na parede no dia do anivers\u00e1rio dela. Quando o coloquei, percebi o quanto isso se conectava a outros desenhos. N\u00e3o era t\u00e3o evidente inicialmente. Ent\u00e3o, fotografei mais e, ao voltar, dei continuidade a esse cruzamento, fazendo o di\u00e1logo se tornar mais vis\u00edvel, por\u00e9m n\u00e3o ilustrativo. Minha inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reproduzir em desenho os padr\u00f5es das grades; \u00e9, a partir delas, criar outra imagem, uma imagem pict\u00f3rica, de uma outra escala. Para um espectador mais fluido, essa rela\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ficar evidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As esculturas cin\u00e9ticas que estar\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o t\u00eam um certo desenho que, para mim, internamente, remete a um balan\u00e7o da cidade, a uma musicalidade que percebo quando estou l\u00e1, de f\u00e9rias, nas festas ou nos ensaios. O v\u00eddeo que estar\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o traz a imagem documental da cidade, servindo como um caderno de anota\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas \u2013 um conjunto de fotos que estamos vendo aqui \u2013 e ter\u00e1 uma trilha sonora que sonoriza a exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quase todas as minhas \u00faltimas exposi\u00e7\u00f5es incluem um v\u00eddeo com essa fun\u00e7\u00e3o. Tenho achado meio mon\u00f3tono entrar em uma exposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem barulho, n\u00e3o tem som, uma din\u00e2mica pr\u00f3pria, uma elipse dram\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>E o som, voc\u00ea comissiona algu\u00e9m ou..?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>O som eu chamo o Nado Leal, o Ricardo Imperatore, Nepal, colaboradores da vida inteira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Ent\u00e3o, vamos por partes. Temos as fotos das janelas da cidade e das grades, que poderiam se transformar em um livro lindo tamb\u00e9m. Eu adoraria ter um livro desse tamanho. Rato Branko Edi\u00e7\u00f5es, vamos l\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>&#8220;Rato Books&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Das grades das janelas do Rio, voc\u00ea agora se aproxima das grades de Salvador. \u00c9 \u00f3bvio que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre as duas s\u00e9ries. Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 outra pessoa, vinte anos depois, e \u00e9 outra cidade, que, de alguma maneira, se torna essa hist\u00f3ria de amor, tanto por uma cidade quanto por uma pessoa. Por isso, acho que h\u00e1 algo lindo nisso, que vai formando c\u00edrculos de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensei muito tamb\u00e9m na hist\u00f3ria do ferro em Salvador. A hist\u00f3ria de Ogum, que \u00e9 o Orix\u00e1 do Ferro, da tecnologia, e que comunica essas tecnologias. Todos aqueles artistas que historicamente trabalharam originalmente como ferreiros tamb\u00e9m faziam figuras e ferramentas para os Orix\u00e1s, utilizadas nas cerim\u00f4nias do Candombl\u00e9, penso, por exemplo, em Jos\u00e9 Ad\u00e1rio \u201cZ\u00e9 Diabo\u201d e em toda a hist\u00f3ria de artistas que trabalham com ferro em Salvador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, por um lado, penso se, de alguma maneira, isso te influenciou ou se voc\u00ea teve algum contato com essa parte da cultura material de Salvador. E, se n\u00e3o, acredito que seria interessante pensar em um futuro contato ou em alguma rela\u00e7\u00e3o futura para continuar explorando. Nesse sentido, n\u00e3o sei se voc\u00ea conhece a Rebeca Carapi\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Sim, eu estive com ela uma vez. Ela inaugurou uma exposi\u00e7\u00e3o agora em Inhotim, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Sim,&nbsp; \u00e9 uma artista jovem, e mulher que trabalha tamb\u00e9m com ferros, eu curto muito do trabalho dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Eu conheci ela e a companheira com a Lu\u00edsa Duarte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Ent\u00e3o, o que h\u00e1 de interessante \u00e9 como existe essa rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria do material do ferro. Al\u00e9m disso, muitas vezes o que parece ser ornamenta\u00e7\u00e3o nas janelas servia para transmitir outras hist\u00f3rias. Por isso, acho que seria uma linha interessante de trabalho que ainda d\u00e1 para continuar explorando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>\u00c9, a minha rela\u00e7\u00e3o com essa exposi\u00e7\u00e3o inaugura uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo com a cidade, uma homenagem a ela. Ela surge a partir da energia que desenvolvi em minha rela\u00e7\u00e3o com Salvador. No entanto, tenho um respeito profundo e me sinto como se estivesse iniciando essa rela\u00e7\u00e3o. Por isso, n\u00e3o digo que \u00e9 inspirado em Salvador; ela vem de uma energia que estou construindo com a cidade, com os artistas que conheci e os lugares com os quais estou criando proximidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fiz uma doa\u00e7\u00e3o para a Orquestra NEOJIBA, uma escultura de grande escala, porque vi um document\u00e1rio sobre eles. N\u00e3o me lembro exatamente do bairro, mas eles t\u00eam uma sede fant\u00e1stica, com audit\u00f3rio, teatro e sala de concerto projetados por um renomado arquiteto, especialista em engenharia de \u00e1udio, que cria as maiores salas de concerto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa rela\u00e7\u00e3o com o ferro e a tradi\u00e7\u00e3o do a\u00e7o \u00e9 algo que compartilho. A minha grade que est\u00e1 l\u00e1 \u00e9 uma grande pintura colorida, n\u00e3o \u00e9 mais um objeto f\u00edsico, como a grade que observamos l\u00e1 embaixo. Aquela s\u00e9rie de fotos que tenho do Rio faz um coment\u00e1rio sobre a crise das pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica; quando o crime e as pol\u00edticas p\u00fablicas fracassam, a paisagem da cidade se transforma com a chegada de itens de seguran\u00e7a, como cabines, c\u00e2meras e grades. Essa transforma\u00e7\u00e3o revela a defici\u00eancia, a fraqueza e a vulnerabilidade da cidade. Os condom\u00ednios come\u00e7am a proliferar, e a letra do Marcelo Yuka ecoa: &#8220;Quem \u00e9 que est\u00e1 preso no condom\u00ednio, \u00e9 o cara que est\u00e1 do lado de fora ou \u00e9 o cara que est\u00e1 do lado de dentro?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Salvador, essa grade n\u00e3o gera o mesmo tipo de coment\u00e1rio; ela se transforma em uma obra pict\u00f3rica, gerando uma imagem, uma pintura gr\u00e1fica. \u00c9 assim que vejo essa s\u00e9rie, que se conecta com as janelas. Nessa exposi\u00e7\u00e3o, consigo cruzar a cor e a sinaliza\u00e7\u00e3o das setas \u2014 vermelha e branca, vermelha e amarela \u2014 com a t\u00e9cnica que desenvolvi nas janelas, que \u00e9 uma estamparia manual. \u00c9 como uma gravura sem prensa, mas que possui um gesto manual, uma individualidade, um fazer manual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fotos das grades retornam, mas n\u00e3o mais como um coment\u00e1rio sobre seguran\u00e7a p\u00fablica. Agora, s\u00e3o um coment\u00e1rio sobre o grafismo da cidade, sobre um desenho que se acopla \u00e0 arquitetura de forma mais po\u00e9tica, talvez, e n\u00e3o brutalista. A Daniela Labra, no primeiro texto que escreveu sobre as grades, referiu-se a elas como ap\u00eandices da arquitetura. \u00c9 algo que se acopla \u00e0 estrutura, mas n\u00e3o foi projetado pelo arquiteto; foi feito pelo porteiro, pelo s\u00edndico ou pelo serralheiro. E que n\u00e3o \u00e9 a arquitetura da cidade. Est\u00e1 no meio do caminho. \u00c9 uma coisa pendurada na arquitetura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong>&nbsp; &nbsp;<br>Eu estou olhando aqui os desenhos que est\u00e3o atr\u00e1s de voc\u00ea e imagino como, de alguma maneira, poderia haver uma grade entre n\u00f3s, pendurada. A grade, de certa forma, permite que voc\u00ea veja o que est\u00e1 do outro lado. Quem est\u00e1 dentro consegue ver um pouco do mundo de fora, e isso se torna uma esp\u00e9cie de instrumento de media\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 aquela ideia da pintura como janela \u2014 a pintura cl\u00e1ssica que \u00e9 uma janela para outro mundo \u2014 mas sim a grade como um instrumento de media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante pensar nisso. A grade pode ser como um par de \u00f3culos que permite ver o mundo, permitindo que voc\u00ea olhe para dentro se est\u00e1 do lado de fora, ou olhe para fora se est\u00e1 dentro. Essa ideia de que esses trabalhos permitem ao p\u00fablico ver o mundo de uma maneira espec\u00edfica, mas tamb\u00e9m olhar tanto para fora quanto para dentro, \u00e9 fascinante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que h\u00e1 uma dupla fun\u00e7\u00e3o aqui. Essas grades n\u00e3o s\u00e3o apenas desenhos, n\u00e3o s\u00e3o apenas pinturas; s\u00e3o instrumentos de media\u00e7\u00e3o que possibilitam essa vis\u00e3o tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro. E ao pensar sobre o que implica a grade, e como seus diferentes desenhos podem alterar a forma como percebemos o mundo, me pergunto qual \u00e9 o significado disso tudo. O que importa \u00e9 essa media\u00e7\u00e3o como um instrumento que, de alguma maneira, protege, mas tamb\u00e9m aproxima, permitindo que se veja o que est\u00e1 dentro com uma certa dist\u00e2ncia, e que as pessoas tamb\u00e9m entrem nesse espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos pensar em prisioneiros, mas tamb\u00e9m em freiras, aquelas que vivem uma vida interior e podem ver o mundo exterior. H\u00e1 algo que me interessa nessa reflex\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 apenas sobre desenho, serigrafia ou pintura cl\u00e1ssica, mas sobre instrumentos de media\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 repensando essa rela\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 o desenho, o que \u00e9 a pintura, e tamb\u00e9m pode fazer o mesmo com a escultura. No outro dia, quando visitei seu est\u00fadio, voc\u00ea comentou que s\u00e3o pinturas feitas por escultores. Agora procuro a cita\u00e7\u00e3o exata do que voc\u00ea disse, mas a ess\u00eancia foi que, \u201cminha ferramenta n\u00e3o \u00e9 um pincel, n\u00e3o \u00e9 a pintura; minha ferramenta \u00e9 o alicate\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, de alguma maneira, eu vejo uma linha que conecta os diferentes trabalhos. Queria ouvir voc\u00ea falar um pouco sobre como pensa o seu trabalho em termos de ser escultura ou n\u00e3o. Como voc\u00ea definiria os trabalhos que realiza hoje em dia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong>&nbsp; &nbsp;<br>Desde o in\u00edcio, eu j\u00e1 havia estudado fotografia em cursos de fotografia e cinema, incluindo teoria e hist\u00f3ria do cinema. Depois, fui estudar arte e rapidamente comecei a aprender com o Ricardo Basbaum sobre performance, desenho, gravura e hist\u00f3ria da arte. Meu pai tamb\u00e9m pintava em casa, criando obras decorativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>O Basbaum era professor?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>O Ricardo Basbaum era professor do Parque Lage.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Ele \u00e9 um pouco mais velho do que voc\u00ea. Ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Sim, ele \u00e9 quase dez anos mais velho. Essa gera\u00e7\u00e3o \u2014 Barr\u00e3o, Luiz Zerbini, Ricardo Basbaum, Beatriz Milhazes e Adriana Varej\u00e3o \u2014 \u00e9 uma d\u00e9cada mais velha que eu, aproximadamente. Eu tive aulas com o Basbaum e Jos\u00e9 Damasceno. Eram apenas quatro alunos, mas tudo me interessava. Meu primeiro v\u00eddeo \u00e9 de 1995, bem no in\u00edcio das minhas fotos. Eu j\u00e1 fazia fotos antes de estudar arte, ent\u00e3o essa coisa multim\u00eddia \u00e9 um tra\u00e7o meu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou um especialista. Chamo de escultura, mas n\u00e3o no sentido de esculpir. \u00c9 uma escultura ampliada, um objeto tamb\u00e9m. \u00c9 uma escultura feita da combina\u00e7\u00e3o de coisas, como Tunga dizia: um encontro de coisas. Contudo, h\u00e1 um lado tradicional que envolve apenas a\u00e7o, remetendo a algo mais cl\u00e1ssico, como a constru\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica do Am\u00edlcar de Castro, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente isso. Eu n\u00e3o tenho dogmas; n\u00e3o quero ter uma escola ou um grupo. Por isso, me permito fazer essa pintura aqui, mas ao mesmo tempo a ideia da bandeira surgiu, e eu n\u00e3o vou deixar de faz\u00ea-la porque n\u00e3o se encaixa ou porque a galeria n\u00e3o acha legal. A liberdade \u00e9 o meu maior patrim\u00f4nio. Trabalho no campo da liberdade absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse espa\u00e7o, experimento tudo. Sou um pouco como aquele m\u00fasico amador que chega em casa com vontade de tocar viol\u00e3o, porque precisa, pensando: \u201cPutz, eu estou doido para tocar\u201d, assim como voc\u00ea chega em casa com vontade de comer. Eu chego em casa com vontade de desenhar ou beber. \u00c9 o mesmo impulso, e dessa anota\u00e7\u00e3o surge isso e aquilo. \u00c0s vezes parece n\u00e3o ter coer\u00eancia, mas com o tempo voc\u00ea v\u00ea as conex\u00f5es e coincid\u00eancias, at\u00e9 mesmo coincid\u00eancias assustadoras, \u00e0s vezes. A bandeira furada, por exemplo, eu j\u00e1 fazia furos circulares em papel manteiga muito antes. Quando comecei a fazer isso, n\u00e3o percebi a semelhan\u00e7a (entre os dois), nem com as grades. Era, como mencionei, um simples presente de anivers\u00e1rio feito \u00e0 m\u00e3o. Comecei a fazer na cor preta, e ela perguntou: \u201cMas vai ser s\u00f3 preto?\u201d Eu respondi: \u201cN\u00e3o, preto e vermelho!\u201d Depois fiz o vermelho e mandei a foto. Ela disse: \u201cS\u00f3 preto e vermelho?\u201d Eu falei: \u201cN\u00e3o, amarelo!\u201d Ent\u00e3o fiz o amarelo. \u00c9 tudo muito trivial, do \u00e2mbito dom\u00e9stico, familiar e afetivo. N\u00e3o sou do dogma, n\u00e3o sou da disciplina; sou do caos. N\u00e3o sou da introspec\u00e7\u00e3o, do segredo ou do mist\u00e9rio; sou da transpar\u00eancia, da colabora\u00e7\u00e3o e da inclus\u00e3o. O ateli\u00ea \u00e9 aberto. Voc\u00ea sabe, voc\u00ea frequenta. \u00c9 at\u00e9 excessivamente aberto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00faltima festa, todas as salas estavam abertas durante a Art Rio. N\u00e3o sei se voc\u00ea veio aqui, mas o segundo andar inteiro e o terceiro andar estavam acess\u00edveis a todos. Tinha fila de pessoas no banheiro, e ningu\u00e9m quebrou nada. Havia um seguran\u00e7a em cada sala, mas apenas um. Algumas pessoas ficaram impressionadas e perguntaram: \u201cVoc\u00ea \u00e9 louco?\u201d Eu respondi: \u201cN\u00e3o, \u00e9 uma festa no ateli\u00ea. Vou desmontar o ateli\u00ea para escond\u00ea-lo?\u201d Voc\u00ea d\u00e1 uma festa no ateli\u00ea, faz uma festa em outro lugar, mas no meio da festa as pessoas sobem, passam pelo ateli\u00ea e veem a arte. Numa festa numa galeria ou em um museu, o museu n\u00e3o pode fazer uma festa? Pode! Servem bebidas l\u00e1 embaixo, e as pessoas sobem e descem. Nunca tive problemas aqui, em nenhuma das vezes. Uma vez roubaram um celular, mas at\u00e9 o seu foi recuperado. O v\u00eddeo me interessa; a pintura, por sua vez, era feita com setas, pintura industrial, spray, fita, rolinho. N\u00e3o podia me considerar um pintor porque fazia pintura de setas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas em Nova York, comecei a fazer a pintura das janelas. A pintura das janelas \u00e9 feita com balde e \u00e1gua, sem fita; \u00e9 uma experi\u00eancia. \u00c9 a tal da pintura do escultor, que lembra o Serra e o Am\u00edlcar, que pinta com vassoura. Ent\u00e3o, eu pinto com madeira, pinto com borracha, pinto com o tal do alicate. Mas n\u00e3o paro; preciso fazer um v\u00eddeo porque vi algo, reuni cinco v\u00eddeos e, assim, um est\u00e1 aqui, vem o v\u00eddeo e depois vem uma foto. Isso, ao longo do tempo, n\u00e9? Estou prestes a completar trinta e cinco anos de atividade, e voc\u00ea se d\u00e1 o direito de ter essa liberdade. N\u00e3o vou seguir algo s\u00f3 porque uma galeria diz: \u201cN\u00e3o, Raul, n\u00e3o fa\u00e7a isso, porque j\u00e1 tem muito; \u00e9 melhor fazer aquilo.\u201d A tend\u00eancia do mercado agora \u00e9 segurar e n\u00e3o soltar. N\u00e3o escuto isso; escuto uma voz interior. Escuto meus pares, as pessoas que visitam aqui. Quero agrad\u00e1-los, primeiramente, e tamb\u00e9m \u00e0s pessoas com quem troco ideias. Quero estar satisfeito com a minha produ\u00e7\u00e3o, sair daqui tarde porque isso ficou bonito. Se precisar, \u201camanh\u00e3 pede pro Fernando subir aqui e descer isso que vai ficar mais legal.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, esse lugar \u00e9 para fazer coisas, fazer imagens, objetos que s\u00e3o chamados de arte. \u00c9 a \u00fanica coisa que sei fazer. Troco isso por dinheiro para viver e pagar minhas contas. N\u00e3o fa\u00e7o isso apenas por dinheiro, mas troco por dinheiro para viver, porque o que sei fazer n\u00e3o sei fazer de outra forma. Mentira, eu tamb\u00e9m sei fazer festas, mas d\u00e1 para conciliar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Essa ideia de estruturas \u2014 estruturas que balan\u00e7am, estruturas que mediam a vis\u00e3o, ou seja, o mediador da vis\u00e3o \u2014 nos leva a algo que considero muito importante de seu trabalho: Raul, o artista, como criador de estruturas que n\u00e3o s\u00e3o apenas estruturas f\u00edsicas ou objetos de arte, mas tamb\u00e9m estruturas de trabalho, estruturas de a\u00e7\u00e3o e estruturas de exposi\u00e7\u00e3o. Penso no seu trabalho ao criar espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha primeira visita ao Rio de Janeiro, em 2001, tive a sorte de vir a este mesmo pr\u00e9dio, a este mesmo edif\u00edcio, quando era um jovem de vinte e nove anos. Era minha primeira visita ao Brasil e ao Rio, e vim encontrar a Denise. Foi a Dominique Gonzalez-Foerster quem disse: \u201cVoc\u00ea tem que conhecer a minha melhor amiga\u201d, que \u00e9&nbsp; a Denise Milfont. A\u00ed, mandei uma mensagem pela internet \u2014 que j\u00e1 estava come\u00e7ando a se popularizar \u2014 e ela falou: \u201cAh, n\u00f3s encontramos aqui no Agora\/Capacete\u201d, no espa\u00e7o de exposi\u00e7\u00e3o que existia aqui embaixo. Voc\u00ea fazia parte do Agora, junto com Ricardo Basbaum e Eduardo Coimbra, que trouxe uma exposi\u00e7\u00e3o maravilhosa da Fernanda Gomes, que era linda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De alguma maneira, voc\u00ea influenciou essa primeira vis\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o que tive com o Rio de Janeiro. Depois disso, voc\u00ea fez aquela exposi\u00e7\u00e3o no hotel, transformou este edif\u00edcio em ateli\u00eas no Rato Branko, onde d\u00e1 espa\u00e7o a jovens artistas. Como parte dessas estruturas, voc\u00ea criou o livro-cat\u00e1logo chamado \u201cVolume\u201d, j\u00e1 estamos no Volume 4, que est\u00e1 a caminho, onde voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 fala do seu trabalho, mas tamb\u00e9m d\u00e1 espa\u00e7o a outras vozes e artistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De certa forma, voc\u00ea funciona tamb\u00e9m como um artista-curador, voc\u00ea \u00e9 um pouco um agitador de tudo isso, permitindo que todas essas vozes criem polifonias, onde podem coexistir. Essa \u00e9 a outra parte do seu trabalho que me parece t\u00e3o interessante: fazer estruturas f\u00edsicas que funcionam como objetos de arte, mas tamb\u00e9m estruturas f\u00edsicas que funcionam como infraestrutura de uma cena local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, acho que voc\u00ea mudou. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o mesmo de vinte e tr\u00eas anos atr\u00e1s, quando vim aqui pela primeira vez conhecer o Agora\/Capacete. O tipo de arte que voc\u00ea mostra \u00e9 diferente. Existe agora uma consci\u00eancia social que mudou aqui no Rio. N\u00f3s n\u00e3o somos os mesmos; entendemos o mundo e as rela\u00e7\u00f5es sociais, as rela\u00e7\u00f5es raciais de uma maneira que n\u00e3o \u00e9ramos capazes de perceber h\u00e1 vinte anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Lut\u00e1vamos por outras causas. Agora, criou-se a condi\u00e7\u00e3o para que o debate seja ampliado. Antes, a gente criava espa\u00e7os de arte, mas agora h\u00e1 espa\u00e7o para mais pessoas. Esses espa\u00e7os, que antes eram reservados \u00e0 elite, precisaram passar por lutas para que grupos chegassem aqui e que esse grupo de cima entendesse a import\u00e2ncia disso. Acredito que \u00e9 a mesma opera\u00e7\u00e3o, a mesma luta que existir\u00e1 em dez anos e que j\u00e1 existiu em outros per\u00edodos. Mas a luta para fazer arte \u00e9, fundamentalmente, lutar pela cria\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de arte. Desde o in\u00edcio, quando o homem pintou na caverna, deve ter havido algu\u00e9m reclamando. N\u00e3o estava l\u00e1, mas imagino que algu\u00e9m tenha dito: \u201cVoc\u00ea t\u00e1 rabiscando? T\u00e1 sujando! Voc\u00ea n\u00e3o foi ca\u00e7ar?\u201d Essa imagem \u2014 que at\u00e9 o Almir Haddad repetiu uma vez \u2014 ilustra bem: desde que a arte existe, h\u00e1 uma persegui\u00e7\u00e3o a ela, h\u00e1 sempre algu\u00e9m querendo derrub\u00e1-la. Portanto, fazer arte \u00e9 lutar para constituir e expandir o espa\u00e7o de arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta de agora \u00e9 diferente da luta de dez anos atr\u00e1s ou de vinte anos atr\u00e1s, quando eu estava aqui jovem, criando um espa\u00e7o alternativo ao circuito comercial, que na \u00e9poca era t\u00edmido e contava com poucas galerias. N\u00e3o havia feiras de arte no Rio nem em S\u00e3o Paulo, mas acredit\u00e1vamos que pod\u00edamos criar um espa\u00e7o para apresentar arte de forma mais \u00e1gil e pr\u00f3xima dos artistas, trazendo um p\u00fablico mais jovem e interessado, sem a solenidade t\u00edpica da Zona Sul. Assim, o foco era o Centro, com mais m\u00fasica e um pouco de festa. Era uma luta para nos tornarmos agentes novos em um circuito burgu\u00eas j\u00e1 consolidado, que precisava de uma oxigenada, uma renova\u00e7\u00e3o, inspirados por Helmut, que na \u00e9poca nem era ainda namorado da Denise, quando criou o Capacete na Rua Paissandu, no Flamengo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Helmut j\u00e1 havia realizado um projeto na Rua Paissandu, onde fez uma exposi\u00e7\u00e3o com Ricardo Basbaum e Ana Infante, que foi fant\u00e1stica. Depois, ele organizou uma exposi\u00e7\u00e3o de pequenos desenhos do Marcel Dzama, e eu n\u00e3o tinha dinheiro na \u00e9poca para comprar; o Pedro Buarque comprou v\u00e1rios, e hoje valem uma fortuna. Assim, passamos a ser seguidores dos eventos do Helmut. Decidimos criar um projeto pr\u00f3prio: eu, Basbaum e Edu, que j\u00e1 t\u00ednhamos feito uma revista chamada Item juntos. Eu era frequentador de um dos projetos que Ricardo Basbaum conduzia, que inclu\u00eda nomes como Br\u00edgida, Ros\u00e2ngela Renn\u00f3 e Jo\u00e3o Mod\u00e9, no Parque Lage, onde ocorreram palestras muito interessantes. A Visorama acabou, ent\u00e3o me aproximei e decidimos fazer a Item.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de Helmut, ele disse: \u201cVamos fazer juntos.\u201d Ele havia feito uma exposi\u00e7\u00e3o do Rubens Mano em Santa Teresa. N\u00f3s realizamos uma exposi\u00e7\u00e3o minha e da Laura Lima na Fundi\u00e7\u00e3o Progresso; Helmut encontrou esse pr\u00e9dio que estava para alugar, e o Agora\/Capacete alugou o t\u00e9rreo. O Eduardo Coimbra ocupava uma sala, Paula Tropi estava ao lado, eu na frente, junto com Tatiana Grimberg, Marcos Chaves, Ricardo Basbaum e Carlos Bevilacqua. Depois, as trocas foram constantes. Voc\u00ea chega aqui e v\u00ea a exposi\u00e7\u00e3o da Fernanda Gomes, que eu organizei. Para mim, Fernanda Gomes \u00e9 o maior acontecimento da arte do planeta. Visitar o ateli\u00ea dela \u00e9 o melhor lugar para ver arte. Eu sou devoto dela; Fernanda Gomes \u00e9 uma religi\u00e3o para mim, assim como Chelpa Ferro e outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse grupo vai mudando, mas eu a amo. Consegui convencer os amigos a tocarem esse projeto juntos. Fizemos a curadoria coletiva, mas eu fiquei \u00e0 frente. Essa exposi\u00e7\u00e3o que voc\u00ea viu da Fernanda \u00e9 muito marcante para mim. E acredito que esse espa\u00e7o continua com a mesma energia. Quando voc\u00ea fala dos meus projetos coletivos de ativa\u00e7\u00e3o no circuito, percebo que sou um artista que n\u00e3o quer estar apenas fechado no ateli\u00ea produzindo objetos para serem vendidos. Quero tamb\u00e9m ocupar um espa\u00e7o que vejo mal utilizado. Criamos uma s\u00e9rie de atividades aqui no Rato Branko; eu e o Cabelo surgimos com uma ideia, depois adaptamos, depois percebemos outras defici\u00eancias e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ano que vem, vamos completar dez anos de atividades e j\u00e1 estamos preparando v\u00e1rias mudan\u00e7as. Durante a pandemia, criamos o Rato Branko TV e uma loja online para vender arte, o que nos permitiu continuar produzindo conte\u00fado. Manuel fez v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de festas, blocos de carnaval e outras atividades. Agora estamos passando por uma grande transforma\u00e7\u00e3o para nos adaptar, porque \u00e9 preciso. Acredito que posso passar o Rato Branko adiante para Jonathan, Dorey, e assim por diante. Provavelmente, me ocuparei com algum outro projeto de repercuss\u00e3o coletiva, de interven\u00e7\u00e3o na l\u00f3gica do circuito, porque esse circuito sempre precisa se alargar e se repensar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que o artista tem essa capacidade de olhar de dentro para fora, de expandir, abrir brechas, criar pontes. Muitas vezes, n\u00e3o somos escutados. O mercado \u00e9 muito profissional, com art advisors, galerias de mercado secund\u00e1rio e prim\u00e1rio, e o curador da Bienal s\u00f3 fala com o galerista, n\u00e3o com o artista. Assim, vou acumulando experi\u00eancias e criando conex\u00f5es, tentando criar canais de comunica\u00e7\u00e3o para que o circuito fique mais forte, mais robusto, com mais di\u00e1logo, transpar\u00eancia e vitalidade. Porque isso \u00e9 inerente \u00e0 arte: o desejo de comunica\u00e7\u00e3o e de afetar o outro positivamente. Quando vemos muito neg\u00f3cio envolvido, surgem quest\u00f5es como o livro pol\u00eamico que saiu agora, \u201cA Guerra do Museu\u201d, que ainda n\u00e3o li.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conhe\u00e7o muito desse mundo; eu saio do Rio e vou para S\u00e3o Paulo. A primeira coisa que fa\u00e7o \u00e9 visitar ateli\u00eas: vou ao do Guto Lacaz, do Felipe Cou, do Rodrigo Andrade, do F\u00e1bio Miguez e da Marina. Eles sempre perguntam: \u201cO que t\u00e1 rolando de bom?\u201d Depois, visito o Auroras. Vou primeiro aos artistas, porque eles me d\u00e3o um roteiro. Dizem: \u201cN\u00e3o pode perder isso na Pinacoteca\u2026\u201d Sen\u00e3o, corremos o risco de passar por filtros que podem ser enganosos. Vivemos, de fato, a volatilidade da ideia de arte, da experi\u00eancia de arte, da imaterialidade, do tempo digital e da velocidade da revolu\u00e7\u00e3o digital. Agora, com a intelig\u00eancia artificial&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Bom, estamos chegando ao final da nossa conversa, deste cap\u00edtulo de Volume TV e Rato Branko TV. Vamos voltar um pouquinho e falar sobre a rela\u00e7\u00e3o que estabelecemos com a Cristina Alban e como essas pinturas se conectam com ela, tornando-se uma homenagem a ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Sim, eu fiz os primeiros desenhos, que t\u00eam metade do tamanho dos atuais, como presente para Isabela Capeto. No dia 24 de janeiro de 2023, convidei Cristina e Roberto para um almo\u00e7o em homenagem a Isabela, que aconteceu na casa de Santo Ant\u00f4nio. Os desenhos estavam expostos na parede. Assim que Cristina entrou, disse: \u2014 &#8220;Que lindo! O que \u00e9 isso?\u201d Eu respondi: &#8220;Esse \u00e9 o meu presente para Isabela, uma nova s\u00e9rie que estou fazendo.&#8221; E ela comentou: &#8220;Que legal! Vamos pensar em mostrar isso?&#8221; Conversamos animadamente durante o almo\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, voltei para o Rio pensando que era um simples presente, sem a inten\u00e7\u00e3o de transform\u00e1-lo em uma obra para o mercado ou em uma exposi\u00e7\u00e3o. Era uma obra gr\u00e1fica de anivers\u00e1rio para Isabela. Por\u00e9m, durante minha estadia em Salvador, percebi a conex\u00e3o entre o desenho urbano das grades e o grafismo que eu havia criado no meu ateli\u00ea na Lapa, sem considerar as grades de Salvador. Fotografei mais grades, janelas, portas e a arquitetura do casario antigo dos bairros hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta ao ateli\u00ea, transformei esse presente \u2014 um conjunto de 14 obras \u2014 em uma nova s\u00e9rie que dobrou de tamanho e incorporou desenhos inspirados nas fotos. Comecei a trocar mensagens com Cristina, enviando fotos e v\u00eddeos para mant\u00ea-la atualizada sobre o que estava acontecendo a partir daquele primeiro conjunto que ela viu em nossa casa em Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia da exposi\u00e7\u00e3o surgiu dessa visita e desse primeiro contato que ela teve com essa produ\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de conversas que v\u00ednhamos tendo no meu WhatsApp. Tenho v\u00eddeos em que explico a montagem, como a parede dobrou de tamanho e como os novos desenhos surgiram. Esta entrevista, que voc\u00ea dedicou a ela no in\u00edcio da nossa conversa, \u00e9 uma maneira de reconhecer sua import\u00e2ncia. Acredito que tamb\u00e9m devo dedicar a exposi\u00e7\u00e3o a Cristina, pois ela est\u00e1 na g\u00eanese desse projeto. O desejo e a troca que tivemos, junto com seu entusiasmo, foram fundamentais para levar essa ideia adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>Curiosamente, a \u00faltima vez que vi Cristina foi pouco antes de seu falecimento, em junho de 2023. Fiz uma visita a ela e a Roberto Alban no Pal\u00e1cio Arquiepiscopal em Salvador. Na ocasi\u00e3o, est\u00e1vamos pensando em projetos e discutindo a possibilidade de realizar uma exposi\u00e7\u00e3o. Essa foi a \u00faltima visita e o \u00faltimo contato f\u00edsico que tive com ela. Cristina sempre estimulava a reflex\u00e3o sobre projetos, mantendo essa energia vibrante, al\u00e9m de um profundo amor pelas artes e por Salvador, sempre desejando fazer algo pela cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Raul<\/strong><strong><br><\/strong>Uma energia propositiva, n\u00e9? Construtiva\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pablo<\/strong><strong><br><\/strong>De trazer gente de fora, de fazer projetos. Eu adoro que n\u00e3o se trata apenas da entrevista, mas tamb\u00e9m da exposi\u00e7\u00e3o que a homenageia, uma merecida homenagem. Acho que uma forma de encerrar \u00e9 refletir um pouco sobre o que aprendi nesta conversa e durante a minha pesquisa sobre a sua obra. Uma coisa \u00e9 conhecer o artista, como conhe\u00e7o voc\u00ea h\u00e1 vinte anos; visito seu est\u00fadio e, como voc\u00ea diz, est\u00e1 sempre de portas abertas. Quando passo por aqui, muitas vezes entro e vejo o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo. No entanto, as visitas aos ateli\u00eas, n\u00e3o substitui a pesquisa mais aprofundada da obra do artista e a reflex\u00e3o sobre o que o artista tem produzido ao longo dos anos. Al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es que se criam entre os trabalhos, aquilo que sempre me interessou \u00e9 tanto o Raul artista, quanto o Raul criador de estruturas de media\u00e7\u00e3o, e acho que os dois est\u00e3o totalmente conectados. Para mim, isso se confirma agora que estamos terminando esta conversa: a import\u00e2ncia do trabalho que voc\u00ea faz, como artista e como criador de estruturas sociais, art\u00edsticas, de comunica\u00e7\u00e3o e de intera\u00e7\u00e3o. Tudo isso faz parte de uma pr\u00e1tica ampliada que considero fundamental, um modelo de artista que vem de voc\u00ea. Com isso, gostaria de encerrar, agradecendo por essas estruturas que voc\u00ea cria. Estruturas que balan\u00e7am, mas n\u00e3o caem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Transcri\u00e7\u00e3o por Lucas Renn\u00f3 e revis\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de texto por Jonathan Nunes.<\/p>\n<\/details>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-c867aa9c wp-block-columns-is-layout-flex\" id=\"foto\" style=\"margin-top:var(--wp--preset--spacing--80);margin-bottom:var(--wp--preset--spacing--80)\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"alignwide view-masonry wp-block-coblocks-gallery-masonry alignwide masonry-grid has-lightbox view-masonry has-custom-gutter\" style=\"--coblocks-custom-gutter:0.1em\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large masonry-brick\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" 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