Tração Animal (texto para o catálogo da exposição)

por Luiz Camillo Osorio para o catálogo Tração Animal

Tração Animal apresenta um conjunto de obras recentes de Raul Mourão. A escultura sempre foi o seu ofício, mas as imagens e a rua empurravam o fazer escultórico e sua preocupação com o volume e a gravidade para a fluência da vida. Espalhar clandestina e silenciosamente estruturas de ferro na cidade guardando e envolvendo o caule de algumas árvores, assim como enganchar artistas amigos nas paredes da galeria do Sergio Porto foram movimentos iniciais do artista respondendo a este apelo de contaminar circuitos e inverter expectativas em relação aos espaços de criação e de recepção da arte.Destes lances iniciais passando depois pela apropriação de placas de sinalização, símbolos e referencias da vida cotidiana, três elementos articulam sua poética: geometria, eloquência e humor. Não necessariamente todos aparecem em cada obra, mas sempre explorando no mínimo duas destas qualidades.

A geometria implica um compromisso com a simplicidade estrutural.A eloquência aponta para uma presença sempre muito direta e imediata da forma. O humor é o tempero que deixa atravessar um sopro de inteligência, quebrando a austeridade da geometria e impedindo a facilitação comunicativa.

As estruturas modulares utilizadas em andaimes são rígidas e utilitárias na sua função cotidiana. Nestes balanços de Mourão, todavia, elas se deixam conquistar pelo movimento, pela articulação lúdica e pela graça de só servirem ao olhar desarmado.Pô-las em movimento depende do gesto do visitante. Dado o impulso, elas balançam seguindo ritmos variados. Umas mais agitadas e nervosas outras mais insinuantes e sensuais; umas mais lentas outras mais breves. Todas, todavia, produzem em conjunto uma coreografia a ser admirada pelo visitante que as percorre, que vê a paisagem externa através dos seus vazios, que percebe o movimento das árvores ou dos carros atravessar o movimento das peças. Não é o caso de parar e ficar vendo. Creio que estas peças convidam o espectador ao movimento. As esculturas e o corpo do espectador entram em uma sinergia interessante. Um corpobalança o outro, um corpo depende do outro; como no futebol, quem se desloca tem preferência.

A presença plástica e visual do mundo entra em sua obra não como tema, mas como energia que se infiltra no processo criativo, desdobrando o olhar curioso em estruturas cinéticas, em planos rítmicos, em sombras dançantes. O movimento dos balanços se desloca para os planos verticais do elevador e deste para o desenho misterioso de luz e sombra.

Se na sala das sombras, apesar da presença física das pequenas esculturas, há um encantamento meio mágico, que surpreende o espectador e o leva para um plano meio fantasioso, meio ilusório, no vídeo, apesar da virtualidade do meio, o que prevalece é a materialidade que se insinua entre os planos de luz, sombra e concreto. Um nos leva ao sonho, o outro nos leva à cidade. Este jogo entre sonho e cidade é algo que atravessa a poética do Raul desde sempre e que convida a um descondicionamento da percepção. As coisas podem ser percebidas sem uma determinação funcional, sem a prescrição definida por qualquer ordem de necessidade.

Esta é a liberdade de um olhar estético que se deixa seduzir pelo mero aparecer dos fenômenos, pela simultaneidade e pela singularidade dos dados sensíveis do acontecimento. A câmera aberta e atenta ao lento movimento do elevador está disponível ao acaso e a mera fruição do que se apresenta em cada passagem de luz.

É uma exposição em looping, tudo vai e volta em balanço: do físico ao virtual, do corpo à luz, da luz à sombra. Neste movimento contínuo, uma espécie de mantra visual, o que se evidencia é a capacidade de encantamento estético de sua obra – a força de capturar e ativar a nossa percepção diante do aparecer das coisas. A surpresa em toda a sua contingência desarmada.

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English version

by Luiz Camillo Osorio for the catalog Tração Animal

 

Animal Traction presents a collection of recent works by Raul Mourão. Sculpture has always been his trade, but images and the streets propelled the act of sculpturing, with its concern for volume and gravity, toward the flow of live. To clandestinely and silently spread iron structures throughout the city guarding and enveloping the trunk of trees, or to hook some friend artists on the walls of the Sergio Porto gallery were initial movements of the artist, answering to a call to contaminate circuits and to invert expectations in relation to the spaces of art creation and reception. From these initial gestures including the later incorporation of traffic signs, symbols and references of daily life, three elements articulate his poetics: geometry, eloquence and humor. Not necessarily the three of them are present in each work, but at least two of these qualities are always present.

Geometry implies a commitment with structural simplicity. Eloquence points toward an always present and direct presence of form. Humor functions as a seasoning that allows the emergence of a wave of intelligence, breaking with geometrical austerity and preventing a too immediate communication.

The modular structures employed in scaffolds are rigid and utilitarian in their everyday tasks. In Mourão’s swings, however, they are overwhelmed by movement, by a playful articulation and by the amusement of being useful only to a disarmed regard. To set them in motion depends on a gesture by the visitor. Once in movement, they swing according to different rhythms. Some more agitated and tense, other more insinuating and sensual; some slower and some briefer. All of them, however, producing together a choreography to be admired by the visitor, who sees the outer landscape through their hollow spaces, who notice the movement of trees and cars piercing the movement of the pieces. It’s not the case to stop and just observe. In my view, these pieces invite the spectator to move. The spectator’s body joins an interesting synergy with the sculptures. A body swings the other, a body depends on the other; as in soccer, who is found in the move has preference.

The plastic and visual presence of the world enters his work not as a theme, but as energy that permeates the creative process, unfolding the curious regard into kinetic structures, rhythmic planes, dancing shadows. The movement of the swings is displaced to the vertical levels of the elevator and from there to the mysterious drawing of light and shadow.

If, despite the physical presence of small sculptures, there is a somewhat magical enchantment in the room of shadows, that surprises the spectator and leads him/her to a quite dreamy and illusory plane, in the video, despite the medium’s virtuality, prevails the materiality insinuated between the planes of light, shadow and concrete. One takes us to the dream, while the other takes us to the city. Such play between dream and city permeates Raul’s poetics since the beginning and invites us to an unconditioning of perceptions. Things may be perceived without a functional determination, without a defined prescription by any kind of need.

Such is the freedom of an aesthetic regard that allows itself to be seduced by the mere appearance of phenomena, by the simultaneity and singularity of sensible data of that which is happening. The open camera attentive to the slow movement of the elevator is available to change and to the mere fruition of whether presents itself in each passage of light.

This is a looping exhibition; everything comes and goes in swing: from the physical to the virtual, from body to light, from light to shadow. In this continuous movement, a kind of visual mantra, that which becomes explicit is the capacity of aesthetical enchantment of his work – the power of capturing and activating our perception before the appearance of things. Surprise in its whole disarmed contingency.