Textos

Você está aqui

por Cauê Alves para exposição Você Está Aqui
São Paulo, junho de 2016

A sentença Você está aqui, título da mostra, geralmente é encontrada em mapas e sistemas de localização. Trata-se de uma indicação de um local preciso dentro de um esquema maior. Mas essa afirmação fora de um quadro de referência ou da cartografia, perde completamente a sua função de indicar a posição. Aqui indica este lugar que você ocupa, o local onde a mostra acontece e pressupõe um determinado instante. Num sentido ampliado, mesmo que o aqui não seja fixo, sempre estamos aqui em relação a nós mesmos.

A exposição de Raul Mourão que acontece aqui no MuBE também ressalta esse lugar. A mostra dialoga com a arquitetura do museu e seus espaços. A rampa, os diferentes níveis de piso da sala expositiva e a marquise da área externa se integram ao trabalho do artista.

A matéria prima..

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O que você vê?

por Fernanda Lopes para exposição Su Casa
Nova York, Outubro de 2015

Em 1964, Frank Stella afirmou sobre suas pinturas: “O que você vê é o que você vê.” A frase exemplifica o que é considerado um dos princípios do movimento minimalista. Em Su Casa, Raul Mourão parece revisitar essa declaração, mas tomando-a não como uma afirmação e sim como uma pergunta: O que você vê é o que você vê?

Ao longo de mais de duas décadas de produção, a obra de Mourão sempre foi marcada por um forte interesse pelo espaço urbano, pelo debate público, pela vida que acontece nas ruas, por acaso, em qualquer esquina, a qualquer hora. Em Su Casa essa lógica parece se inverter, ou se reconfigurar, levando em conta outra dimensão de espaço e, como consequência, de percepção. A exposição guarda certa escala doméstica, humana. O espaço da loja de rua transformado em espaço expositivo se aproxima muito..

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Ver o visível

por Eucanaã Ferraz para a exposição FENESTRA, março de 2015

Nessa nova mostra, Raul Mourão mais uma vez investe no difícil casamento entre acaso e construção. Uma atitude não se sobrepõe à outra e, antes, fazem-se na tensão entre ambas, criando-se com tal retesamento soluções que suspendem julgamentos inclinados à decisão ou à classificação.

Assim, sob a força de articulações desestabilizadoras, os trabalhos têm algo do princípio da gravura, mas não se definem pela reprodutibilidade. Adotam procedimentos da monotipia, mas a imagem obtida não resulta do processo mais comum de pintar a imagem numa superfície, quase sempre de vidro, para depois comprimi-la com o papel. Os trabalhos estão mais próximos do carimbo, porém não se resumem a isso. E não se afastam de vez dos procedimentos da pintura. Também não há uma escolha por essa ou aquela superfície, este ou aquele material, este..

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A grade, o grid: o duplo

por Francisco Bosco para a exposição MOTO
fevereiro de 2014

O motor da obra de Raul Mourão – a partir de certo estágio de formulação em que a obstinação das questões indicia a consolidação de um olhar, um gesto, uma singularidade – é, no meu entender, uma tensão que se poderia nomear, por uma cadeia de oposições, como aquela entre o mundo e a forma, o concreto e o abstrato, o significado e o significante, a heteronomia e a autonomia. Essa tensão em geral começa por se mostrar irredutível, sem síntese, sob a forma de um duplo que instaura um mecanismo de presença/ausência, desdobrado pelo artista em diversas possibilidades, e tende a rumar para a prevalência do formal. Outras vezes, como no caso de sua conhecida série sobre o ex-presidente Lula (Luladepelúcia, Luladegeladeira, Luis Inácio Guevara da Silva), essa tensão se resolve em obras que sintetizam significado e significante, sentido..

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Aberto para balanço

por Frederico Coelho para a exposição Movimento Repouso

Desde 2010 Raul Mourão vem trabalhando com esculturas cinéticas. Sua pesquisa sobre materiais e movimentos trouxe uma nova rota estética para sua obra. Em uma trajetória marcada pelo ecletismo de meios e frentes de ação, Raul mergulhou nesse universo e se concentrou por um período em seus balanços. Suas últimas exposições exploraram as múltiplas possibilidades nessa relação entre a matéria bruta do aço e sua leveza através de sutis movimentos pendulares. Se antes sua obra podia as vezes encarcerar o olhar entre grades, a partir dos balanços ela passou a chamar o espectador para dançar.

Sua nova safra de balanços, feita especialmente para esta exposição, nos mostra como os temas e as formas dessas esculturas permanecem se ampliando em uma espécie de análise combinatória infinita. A engenharia do equilíbrio se torna cada vez mais..

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Tração Animal (texto para o catálogo da exposição)

por Luiz Camillo Osorio para o catálogo Tração Animal

Tração Animal apresenta um conjunto de obras recentes de Raul Mourão. A escultura sempre foi o seu ofício, mas as imagens e a rua empurravam o fazer escultórico e sua preocupação com o volume e a gravidade para a fluência da vida. Espalhar clandestina e silenciosamente estruturas de ferro na cidade guardando e envolvendo o caule de algumas árvores, assim como enganchar artistas amigos nas paredes da galeria do Sergio Porto foram movimentos iniciais do artista respondendo a este apelo de contaminar circuitos e inverter expectativas em relação aos espaços de criação e de recepção da arte.Destes lances iniciais passando depois pela apropriação de placas de sinalização, símbolos e referencias da vida cotidiana, três elementos articulam sua poética: geometria, eloquência e humor. Não necessariamente todos aparecem em cada obra, mas sempre explorando..

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Tração Animal – Exposição

por Luiz Camillo Osorio para a exposição Tração Animal

Tração Animal apresenta um conjunto de obras recentes de Raul Mourão. A escultura sempre foi o seu ofício, mas as imagens e a rua empurravam o fazer escultórico e sua preocupação com o volume e a gravidade para a fluência da vida. As estruturas modulares utilizadas em andaimes são rígidas e utilitárias na sua função cotidiana. Nestes balanços de Mourão, todavia, elas se deixam conquistar pelo movimento, pela articulação lúdica e pela graça de só servirem ao olhar desarmado.

A presença plástica e visual do mundo entra em sua obra não como tema, mas como energia que se infiltra no processo criativo, desdobrando o olhar curioso em estruturas cinéticas, em planos rítmicos, em sombras dançantes. O movimento dos balanços se desloca para os planos verticais do elevador e deste para o desenho misterioso de luz e sombra. É uma exposição..

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TRAÇÃO ANIMAL
Museu de Arte Moderna
Rio de Janeiro – 2012

Vistas parciais da instalação Proibido Trepar, 2012. 8 esculturas cinéticas em tubos de aço e braçadeiras.

Vistas parciais da instalação Sala sombra, 2012. Esculturas cinéticas em aço 1020 e iluminação.

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TOQUE DEVAGAR
Praça Tiradentes
Rio de Janeiro – 2012

De 15 de setembro de 2012 a 6 de outubro de 2012 | Texto Michael Asbury | Produção Tisara, Artex | Coordenação de Produção Mauro Saraiva | Produção Executiva Ana Hupe, Aicha Barat | Montagem Anísio Santana e equipe | Administração Claudia Figueiró, André Fernandes | Design Gráfico Tecnopop (Augusto Erthal) | Assessoria de Imprensa Meise Halabi | Fotografias Clara Cavour, Cassio Vasconcellos, David Pacheco, Raul Smith, Quito | Apoio Studio X, Mills | Patrocínio Secretaria Municipal de Cultural, Fundo de Apoio Pró Artes Visuais

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Raul Mourão e sua arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro

por Michael Asbury para a exposição Toque Devagar

Denominada Praça Tiradentes em 1890, em antecipação ao centenário (1892) da execução do mártir da Independência, o novo nome livrou-se das associações monárquicas do antigo, Praça da Constituição, que celebrava o local onde D. Pedro I, em 1821, jurou fidelidade à constituição portuguesa da sacada do Real Teatro São João (onde atualmente se encontra o Teatro João Caetano).

Renomeada um ano após a Proclamação da República, a Praça ficava, assim, desvencilhada de sua conotação monárquica, enquanto a referência à independência da nação era mantida. Esta ultima estava associada ao local desde 1862, com a instalação da estátua equestre de D. Pedro I, representado no momento em que declara “independência ou morte”. A estátua em si não é insignificante. Foi a primeira a ser erguida no Rio de Janeiro, por meio de um concurso..

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Entrevista com Raul Mourão para o livro MOV

Ateliê Raul Mourão
conversa via skype com Maria do Carmo Pontes (Londres) e Frederico Coelho (Rio de Janeiro)
Outubro de 2010

Maria do Carmo: A Rosalind Krauss tem um texto lindo sobre grid, em que fala sobre a presença dele na pintura do século XX, do grid como emblema da modernidade. Ela se refere só à pintura, mas acho que é um conceito válido para outras coisas também.

Raul Mourão: Não conheço esse texto. Ela se refere a uma malha ortogonal que está por trás de algumas pinturas?

MC: É, o grid pode mascarar e revelar simultaneamente. Para mim, as esculturas da série Balanço são uma decorrência clara da série Grades. Vejo os Balanços como Grades que se mantêm em movimento. Então, o dentro e o fora mudam a cada momento, a cada pessoa, que estabelece uma velocidade, uma agilidade ao movimento, é um novo momento, um novo..

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Raul Mourão, a gentil arte de burlar

por Paulo Herkenhoff no livro ArteBra
março de 2007

Um conjunto heterogêneo de obras de Raul Mourão enlaça o olhar com ironia. Mourão opera com a subtração da regra e formas gentis de sua transgressão. O artista desestabiliza. Tudo será objeto de ironia, do poder ao medo. Cada obra parece querer atuar como um aparelho para a prática dessa perversidade. Em seu repertório, existe o confronto com a ordem jurídica, leis da Física, estruturas comportamentais, normas e mores, cânone estético, regras do jogo, grade, malha ou a grid cubista. Para a transgressão, o artista aborda a física da maciez, a elasticidade, a geometria do medo, o desenho sólido, a cultura da sobrevivência nas ruas do Rio de Janeiro e a política da forma.

 

Desenhos em longa manus

Malgrado o domínio da linguagem do desenho, Mourão realizou algumas obras que..

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Carga Viva – 2002

Texto do catálogo da exposição com José Bechara
na Celma Albuquerque Galeria de Arte em Belo Horizonte

por Fernando Cocchiarale
Rio de Janeiro, junho de 2002

À primeira vista parece não haver qualquer afinidade entre a pintura de José Bechara e a escultura de  Raul Mourão apresentadas, em duas mostras individuais, na Galeria Celma Albuquerque. Entretanto, afora a proximidade geracional, uma ressalva, de imediato, as aproxima: elas não são propriamente pintadas e esculpidas, embora se desenvolvam a partir da ampliação (1), promovida pela produção contemporânea, desses dois campos tradicionais da arte. Tanto Bechara quanto Mourão, utilizam-se de materiais e de métodos de produção estranhos àqueles convencionalmente aceitos pela pintura e pela escultura.

Suas obras estão, portanto, remotamente autorizadas por conquistas feitas desde o Cubismo, o Dadaísmo e o..

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Pequenas frações – 2003

por Paulo Venancio Filho
Rio de Janeiro, novembro de 2003

O que está nesta exposição de Raul Mourão provém, com certeza, de um sensor em movimento constante pelo ambiente social altamente saturado que, após captar determinado objeto ou situação, e inspecionar detidamente materiais, dimensões, formas, localizações, etc., procede imediatamente a uma sintética apreensão global do visado. Coloca-o numa espécie de programa de reestruturação plástica. O raciocínio aplicado é elástico, flexível, irônico e forma um conjunto de instruções sobre a visualidade urbana atual. O tempo é o presente imediato. A intimidade conspícua com a cidade  fixa a cada instante uma fração qualquer e a equaliza à estrutura contemporânea da imagem. A legibilidade está socialmente dada; é o mundo pop, ou pós. A pretensão do trabalho não é, contudo, reproduzir este mundo, mas traduzí-lo num padrão de apresentação..

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drama.doc – 2004

por Guilherme Bueno
Junho de 2004

Raul Mourão, artista convidado para a segunda edição dos Projetos Especiais do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, apresenta a exposição Drama.doc, uma série de fotografias de detalhes arquitetônicos, e um conjunto de esculturas realizadas com grades de ferro, similares àquelas de segurança instaladas em edifícios. Ao eleger essas coordenadas como protagonistas de sua investigação, o artista discute o objeto artístico, seja em sua concepção fundadora, ou na natureza de sua intencionalidade como propositor de um discurso.

Pensadas reciprocamente, entre as fotos e as esculturas infiltram-se diversos estratos da história da arte em sua problematização do espaço. O documento fotográfico é submetido a um processo de manipulação, no qual ruídos físicos e digitais criam uma nova imagem em descompasso com seu suposto referencial. Paradoxalmente,..

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Cartoon – 1999

por Piu Gomes
Rio de janeiro, 1999

A cena é clássica: do alto, o objeto pesado despenca em cima do personagem, que estatelado fica a ver estrelas no ar. CARTOON transporta a ironia de um dos ícones do cinema de animação para o espaço da arte. Um corpo sem cabeça, literal paletó de madeira que termina na grande caixa, pesada, desproporcional. / Estamos perante o achatamento do pensamento racional, esmagado por uma blitzkrieg emocional? Ou constatamos que a vida real pode ser tão imprevisível como o mundo do desenho animado, onde as coisas desabam sobre a gente sem aviso prévio?/ Você viu o cabeção por aí? Dizia uma canção dos Golden Boys. Stop making sense, dizia uma canção dos Talking Heads. CARTOON radicaliza essa proposta sendo fiel ao universo que o originou: simplesmente, nonsense. Quebre a cabeça.

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Preto no branco e/ou – 1994

por Paulo Herkenhoff – Texto do folder da exposição coletiva
10 de maio a 19 de junho de 1994
Galeria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage

Amador Perez, Anna Maria Maiolino, Franz Weissmann, Maria do Carmo Secco, Mira Schendel, Manoel Fernandes, Raul Mourão

Esta exposição tem inicialmente o mérito de reunir dois nomes matriciais da arte no Brasil desde o pós-guerra: Franz Weissmann e Mira Schendel. Franz Weissmann está na base do projeto construtivo da arte brasileira, num, papel histórico em que o pioneirismo seria superado pela qualidade e inteligência do seu projeto estético. Weissmann substituiu seu papel na cronologia pelo de agente da linguagem. Às suas superfícies inconturbadas no seu rigor construtivo, nas suas cores, no acabamento de seus planos, Weissmann opôs uma obra violenta, convulsa. É como se uma revolta e uma ira pusessem à prova todas as certezas do escultor concreto,..

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Cego só Bengala – 2003

por Daniela Labra
São Paulo, agosto de 2003

As estruturas-esculturas da série Grades, de Raul Mourão, são fruto da pesquisa cotidiana que o artista desenvolve sobre elementos rueiros: cães, sinalizações, objetos bizarros, gradis, frases. Interessado na sobreposição de materiais e na interseção de suportes e formas, Mourão tem no seu trabalho um ponto de confluência de muitas referências e experimentações. Sua obra se dá em meios diversos como o vídeo, pintura, fotografia, escultura, desenho e performance, sem que ele, no entanto, busque se enquadrar numa determinada modalidade de produção artística. Raul observa as surpresas visuais e sensoriais que a cidade oferece e, sempre armado com uma câmera fotográfica, registra o insólito do mundo urbano que muitas vezes escapa ao olhar do passante menos atento. As fotos apresentadas junto com Grades, fazem parte da série Drama.doc,..

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A obra de arte na era da reprodutibilidade provocante – 2005

por Piu Gomes
Brasília, outubro de 2005

Se você lembrou de Walter Benjamin e seu famoso ensaio que sacudiu o meio artístico e fez todos repensarem a produção cultural, não foi por acaso. A nova obra de Raul Mourão, Lula de Pelúcia, também parte do princípio da reprodução para causar reflexão. Mas se Benjamin questionava, entre outros aspectos, o valor da obra – não mais singular, e sim disseminada – e o princípio da autoria – numa escala de produção industrial, vêm à tona manifestações artísticas como o cinema, onde o autor deixa, talvez, de ser um só para se fazer coletivo – Raul Mourão mais uma vez se apropria de elementos cotidianos e urbanos para fazer da galeria um espaço lúdico, de sensações inusitadas, que teimam em acompanhar você mesmo depois da saída.

Mourão marca seu trabalho por um olhar carinhoso e ao mesmo tempo crítico da urbis..

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Luladepelúcia

por Daniela Labra
Rio de Janeiro, agosto de 2005

Estamos vivendo tempos de perplexidade e estupor. Novamente, fomos pegos de surpresa. Entretanto, ao contrário do que se pode imaginar, esta série criada por Raul Mourão, que tem como base a imagem do presidente Luís Inácio Lula da Silva, não é um ataque indignado ao escândalo político que assola a nação, desde junho de 2005.
Em boa parte de sua pesquisa, Raul se utiliza da ironia e do humor. Aqui, outra vez, essas características surgem, antecedendo uma denúncia de fato. Seus trabalhos enfocam, em geral, elementos do cotidiano urbano e da esfera pública: as grades de segurança, o futebol, os vira-latas nas ruas  e até artistas pendurados nas paredes de galerias, suscitando sutil  reflexão sobre nossos sistemas culturais, políticos e sociais.

A idéia da série Luladepelucia surgiu, ainda em janeiro de 2003, quando a população e..

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Ninguém sabia – 2005

por Andre Eppinghaus
Carioca, tricolor, empreendedor criativo.
Rio de Janeiro, outubro de 2005

Este trabalho foi apresentado a mim por Raul Mourão em julho deste ano. Naquele agradável almoço em Ipanema, eu me tornara mais um dos privilegiados a saber. Se poucos sabiam, muitos vão concordar: luladepelúcia é uma obra visionária. Começou como piada na semana seguinte a da posse do Presidente e quase três anos depois tem potencial para ser a melhor síntese artística da ressaca ética e moral que o país atravessa atualmente, que transformou a TV Câmara num fenômeno de audiência, e conseguiu elevar o neto do Coronel e o filho do Prefeito a expoentes da honestidade. Prefiro usar a palavra ressaca pois sabemos que a crise não é de hoje. Assim como a corrupção não é um mal exclusivo do Brasil, tampouco está restrita à esfera pública. Corrupção é como câncer, aids ou gripe: uma doença que..

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O Lula não é de verdade, o Lula é de pelúcia – 2005

por Fausto Fawcett
Rio de Janeiro, Outubro de 2005
Todos sabem que o Brasil é um abismo que nunca chega. Um paiol de crises e vertigens calcadas em escravidões, colonialismos, plutocracias patrimonialistas, enfim, núcleos de excelências cercados por forças do atraso burocrático, ou da incompetência mais escancarada e cara de pau. Somos como a região da Trácia no império romano, região distante e equivocada quanto a sua importância, ou seja, nenhuma. Paradoxalmente, contrariando Nelson Rodrigues, é da nossa viralatice que devemos ter orgulho, da nossa força periférica de bárbaros do terceiro, quarto e quinto mundo.

Repito, o Brasil é um abismo que nunca chega. Agora que a sombra de Mad Max paira sobre o mundo espetando nossas consciências com imagens de ruínas futuristas, agora que as desintegrações sociais e as catastrofes naturais estão cada vez mais agudas é certo que uma baderna de máfias vai finalmente se mostrar mais poderosa do que todos os estados liberais, sociais-democratas ou blá-blá-blás de organizações sociais variadas.

Nesse contexto, junto com todas as Chinas, Indias, Médios Orientes, Méxicos, Croácias, Patagônias e o cacete a quatro, o Brasil servirá de esconderijo varonil e entreposto para todas as ciências, dinheiros, gente..

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Um boneco de Dorian Gray – 2005

por Marcelo Pereira
Rio de Janeiro, outubro de 2005
Luladepelucia foi imaginado por Raul Mourão no início do governo Lula. O Brasil vivia, naquele momento, um entusiasmo pela figura do novo mandatário. Tal entusiasmo, inédito na história recente do país, era expresso pelos mais humildes na confiança no presidente-operário; pelos intelectuais, na enfim chegada ao poder do símbolo maior de suas aspirações esquerdistas; e na imprensa, por um adesismo de primeira hora. Agora-a-coisa-vai.

Luladepelúcia era então um comentário irônico a tal estado de coisas. Seria um presidente-bibelô, um ursinho barbudo, uma coisa fofa para apertar, abraçar e dormir junto nos momentos de angústia. Um amuleto, por assim dizer.

Luladepelucia, no entanto, foi materializado por Raul Mourão no terceiro ano do governo Lula. O clima é outro. O presidente, seu governo e seu partido estão envolvidos numa sucessão de escândalos que aponta para o maior esquema de corrupção que já vimos. Lula já não é o aquele padim ciço de outrora. O rei está nu e o sonho acabou.

Luladepelúcia também sofreu mutações. A aquela ironia à adoração dos primeiros tempos, soma-se a ironia à própria passagem do tempo, potencializando a força da obra. Se repararmos bem, não é mais..

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Um elefante incomoda muita gente… – 2005

por Paulo Reis
Rio de Janeiro, outubro de 2005
Brasil é um país onde o Surrealismo não fez escola. O Brasil é um país por demais surrealista, onde o real sempre suplantou a fantasia, para que o sonho e o automatismo pudessem ditar normas. A ópera bufa foi montada desde a chegada dos portugueses: um teatro religioso para um povo alheio aquela encenação. São quinhentos anos na busca de encontrar o outro, alteridade desgovernada, diria. Hoje a realidade deixa de ser surreal para ser supra-real. Os fatos poderiam ter saído de uma comédia de erros de João Caetano, ma está mais para uma comédia popular de João Bettencourt intitulada “Dólar, cuecas, carecas, mensalões e afins”, pois nunca chegaria a uma fina ironia wildeana da importância de ser honesto.
É desta visão nada plausível que o artista Raul Mourão elabora uma crítica contundente, risível até, mas não menos ácida sobre algo triste e trágico… Enfim, o artista vive a realidade que é comum a todos e como tem a capacidade da transubstanciação, oferece-nos arte. Na mostra Luladepelúcia, na galeria Lurixs, o artista expõe uma instalação com bonecos de pelúcia, desenhos em grafite sobre papel e trabalhos a 4 mãos, todas as obras tomam a figura do Presidente Lula como ponto de partida. Não..

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Freud explica Lula? – 2006

por Paulo Roberto Pires
publicado no site No Mínimo
Fevereiro de 2006
Comprei um Freud de pelúcia. É um Freud velho, é verdade, mas por isso mesmo parece experiente. Tem barba branquinha, óculos de aros grossos e fica sempre sentado, enfatiotado num terninho preto. Espero que ele me conforte e explique por que em nosso querido Bananão, e só aqui, uma outra criatura-piada de pelúcia, o Lula, nasceu como “arte” e, mais incrivelmente ainda, virou moda-cabeça para quem tem R$ 1 mil (!!!!!) sobrando e/ou gosta de tirar uma onda como FHC – que não perde uma chance de lustrar seu passado e foi para a imprensa dizer que “também tinha o seu”.

Nada contra o artista Raul Mourão, que confeccionou e vende os bonequinhos artísticos com grande êxito. Mas muito melhor do que a tralha conceitual que se tem de aturar para dar pedigree artístico a uma piada é a irreverência da Associação dos Filósofos Desempregados, que produz e distribui não só Freuds de pelúcia mas também Ches, Cristos, Budas e Virginias Woolf. É a hilariante série Pequenos Pensadores, todos fofos, que pode ser vizualizada no site.

A idéia da Associação é implacável: produzir trecos e coisas engraçadas pode ser tão gratificante quanto “provar questões eternas”. Sem teoria..

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Um trabalho de coragem – 2005

por André Sheik
Rio de Janeiro, novembro de 2005
Luladepelúcia é um trabalho corajoso. Fazer arte requer uma certa dose dessa qualidade, mas nem todos os trabalhos de arte trazem essa característica. Raul Mourão se arriscou e isso por si só já é muito bom. Fazer arte não é brincadeira, embora possa ser divertido e irônico em muitos casos. Olhar o presidente querido do Brasil feito um boneco suscita inúmeras metáforas e, como bom trabalho que é, Luladepelúcia carrega inúmeras delas e mais algumas que o próprio Raul provavelmente não pensou. Eu poderia citar diversas, no entanto, não quero restringir a interpretação do espectador. Mas vou dizer porque o acho um trabalho de coragem.

A representação de uma figura de poder não é novidade, seja na história da arte em encomendas de retratos, pinturas ou estátuas ou satirizada em charges de jornal. Lula não pediu para ser transformado em boneco sob nenhum aspecto e, até agora, nenhum publicitário encomendou a peça ao departamento de propaganda do governo ou a alguma agência que presta serviço ao mesmo com dinheiro transitando por caminhos subterrâneos, só que foi isso que acabou acontecendo: o presidente virou um boneco.

Essa provocação que o trabalho traz nos faz rir, não só da situação, como..

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Um lugar que não existe – 1996

Por Marco Veloso, Novembro de 1996
“I want to extend my art perhaps into something that doesn’t exist yet”, esta afirmação de uma conhecida escultora norte-americana diz quase tudo o que eu gostaria de colocar ao lado desta exposição de Raul Mourão. Sinceramente, vi muito pouco o que ele produziu, a não ser através de fotos, de desenhos e de alguns poucos papos que tivemos.

Mas, fica-me a impressão de alguém altamente comprometido com o que faz. Não quero dizer com isto que Raul seja um dos artistas que buscam identidade pela pseudo-seriedade com que encaram o mundo da arte. Ou, um daqueles que pelo cinismo, hoje em dia considerado uma postura inteligente, tentam definir o que é  e o que não é arte. Bad aesthetic times.

Não pretendo esclarecer muita coisa do que direi. De certo modo, as esculturas de Raul também adotam essa atitude. Há, porém, um método quase que constante. Objetos da vida cotidiana são arrancados de seus contextos, delicadamente, por uma poética lançados no ambiente da arte, feitos em ferro e, então, agressivamente (?), inseridos numa linguagem artística quase nonsense. Pode ser uma trave de futebol, uma vassoura, um gaveteiro ou um guardanapo sobre um copo. Se todo aquele que faz arte caracteriza-se por um estilo, este misto de violência..

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Os 90 – 1999

Texto parcial do catálogo da exposição coletiva Os 90
por Iole de Freitas
Paço Imperial, Rio de Janeiro, dezembro de 1999
Cabelo, Efrain Almeida, Eliane Duarte, Elisa Bracher, Ernesto Neto, Franz Manata, Guilherme Machado, José Bechara, José Damasceno, Márcia X., Marcos Cardoso, Marepe, Maurício Ruiz, Oriana Duarte, Raul Mourão, Rosana Palazyan, Valeska Soares e Vânia Mignone

Estive na casa de Rodrigo – Cabelo – há alguns dias. Linhas sobre panos vermelho, preto, branco. Desenhos intermináveis que instalam um continuum no espaço como se fossem fotogramas de um filme.

Imagens que ocorrem no mesmo instante nas performances e nos panos imantados num emaranhado de coisas, pessoas e formas.

Matéria em diversos estados: Sólido, gosmoso, semilíquido. Pegajosa como a poética da obra que adere à mente de quem a vê e assimila: evidências de um canal eletrificado entre o olhar de quem observa  e a irradiação nervosa da forma que se vê. Ressonância que ecoa nas palavras e coisas mudas ou invisíveis que se inscrevem no tempo da obra e propõem uma duração ainda desconhecida mas indicadora de uma especialidade própria, constitutiva. Filme sem película, circuito multidirecional, boato sem som.

Só pra quem sintonizar.

A atitude..

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Samba da pizza – 2006

por Bernardo Mortimer
Rio de Janeiro. Abril de 2006
O presente passa, o presente muda, a obra-de-arte fica. E o Lula? Que dia é hoje mesmo? Ah, sim. Mais do que um tanto faz, é a surpresa do mentiroso, ou pior, do arauto da verdade da transmissão ao vivo da vez. O tempo passa, e o luladepelúcia ocupa o cargo máximo da nação. O PT não é o partido que era antes de 2003, ou é e não dava para desconfiar. O núcleo duro foi o que se desmanchou no ar.

A arte datada nem sempre é o contrário da arte eterna, e é fácil derrubar tanto um quanto o outro rótulo. O complicado é mexer com a arte que veste a camisa do jornal do dia, do último plantão do canal de notícias a cabo, da última atualização do blog do jornalistão do site. Quando o conceito de arte aberta incorpora o excesso de informação de um personagem que adora mídia, e que é amado e odiado historicamente em doses iguais pelos homens por trás de teclados, microfones, máquinas fotográficas ou gravadores, não dá pra entender aquilo definitivamente. Sempre haverá um dia seguinte para que a obra se torne outra coisa, uma curiosidade em descobrir o que era a obra quando só idéia.
João Moreira Salles e Eduardo Coutinho tiveram dúvidas sobre reeditar os documentários ‘Entreatos’ e ‘Peões’..

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Os signos ásperos – 2004

por Agnaldo Farias
São Paulo, março de 2004
Pensemos no jogo de futebol, esporte que o artista cultua e pratica com denodada bravura, na alegria antecipada da carona, na fila do ingresso, no alarido da turba abalroando-se, apressada em descobrir os lugares correspondentes, nos olhares excitados convergindo para o gramado, na entrada dos jogadores enfileirados, nos estrondos, nas luzes e na fumaça dos fogos e flashes, nas vozes estridentes irradiadas pelos radinhos colados aos ouvidos, na dispersão dos exercícios de aquecimento seguida da pausa ordenada e marcial, no apito do juiz e na bola que finalmente rola.

Pensemos agora no estádio vazio, nas linhas imaculadamente brancas que demarcam o gramado verde em porções regulares, nas longas linhas retas que definem aos combatentes os limites exteriores e interiores da área da porfia; na linha circular que consagra o meio de campo, ponto de partida de tudo e região central onde calculada ou estabanadamente são montadas as estratégias de ataque; e nas duas meia-luas, dois arcos que se distendem a partir das traves, talvez por efeito das unidades basculantes que os compõem, os goleiros, cujos movimentos são por elas balizados. Pensemos nas traves, nesses retângulos que se erguem abruptos, graves e sólidos nas duas extremidades..

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NÃO REALIZADOS
Paço Imperial
Rio de Janeiro – 1999

Data
de 9 de dezembro de 1999
a 5 de março de 2000

 

Paço Imperial
Cabelo

Efrain Almeida

Eliane Duarte

Elisa Bracher

Ernesto Neto

Franz Manata

Gulherme Machado

José Bechara

José Damasceno

Marcia X.

Marcos Cardoso

Marepe

Mauricio Ruiz

Oriana Duarte

Raul Mourão

Rosana Palazyan

Vania Mignone

 

Espaço Cutural Sergio Porto
Valeska Soares

 

Curadores
Anna Maria Niemeyer
Claudia Saldanha
Fernando Cocchiarale
Iole de Freitas
Luiz Aquila
Luiz Camillo Osorio
Sônia Salztein
Walter Sebastião
Lauro Cavalcanti

 

Realização
Paço Imperial / MinC – IPHAN

 

Patrocínio
FINEP
Lei de Incentivo a Cultura
Ministério da Cultura
Preceitura do Rio

 

Apoio
Amigos do Paço
BNDES / Cultura
VARIG
O Globo

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Do ferro ao afeto – 2010

por Felipe Scovino
A primeira vez que tomei contato com a série Balanços de Raul Mourão foi em setembro do ano passado durante os ensaios da Intrépida Trupe para o espetáculo Projeto: Coleções. Mourão estava começando a experimentar os primeiros trabalhos dessa série (que apesar dele relacioná-las como estudo ou experiência de sucessões, como se cada escultura fosse o projeto ou um esquema para algo “melhor” ou maior, entendia que exatamente esse caráter desafiador, inconstante e molecular da escultura como forma transitória tinha possibilitado ao artista um marco investigativo de alta potência para o seu trabalho) justamente tendo os bailarinos da Companhia como laboratório. Ao ver um deles montando as grades umas sobre a outras, intercalando espaços, comprometendo os vazados das peças de Mourão e como uma espécie de corpo-borracha se encaixando e movendo de forma fácil naquela estrutura que para mim significava rigidez e formalismo, tive a certeza (e acredito que assim como Mourão) que o que se consistia como silêncio (ainda que o ferro transmitisse uma ideia de agressividade por sua composição material) transformou-se em corpo, afeto e linguagem.

Foi impressionante perceber não apenas uma nova possibilidade para uma experiência cinética nas artes, mas..

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Chão, parede e gente – 2010

por Frederico Coelho
I

A exposição está aberta e parada. Passo a passo, você entra na sala e pisa na certeza de que tudo está no lugar. Seu olhar confiante não procura mais o chão ao andar pelo recinto de uma galeria. Tem apenas que encarar as obras. E lá estão elas. Em sólida espera. Paradas, firmes, impávidas, retas.

No início, como se estivesse numa casa desconhecida, existe o receio de tocar em algo que vai quebrar ou a preocupação em tirar um móvel do lugar. Mas a partir do momento em que você mexe em uma das bordas, a casa em descanso nunca mais irá parar. Pois é impossível não ceder à tentação de acionar o vai e vem preguiçoso e gracioso desses objetos. Testar o peso que é leve e dar movimento ao inanimado. O aço bruto se recobre de sensualidade e sua inesperada leveza transforma-se em uma ginga, um ir e vir acolhedor e descontraído. Assim, como você, os visitantes irão tocar em tudo, até cada escultura cessar seu movimento e voltar ao escuro inerte da sala fechada.

– Raul Mourão sempre esteve apavorado. Blindado em abstrações, andava nas ruas e via grades onde viam a salvação. Cercou carros, cercou pedras, cercou árvores, perseguiu cachorros, esmagou cabeças, calou surdos, encaixotou mitos, pendurou artistas, expandiu ódios,..

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Elogio da instabilidade (prelúdio a uma colisão provável) – 2010

por Jacopo Crivelli Visconti

“A arte é o que torna a vida mais interessante do que a arte…”
Robert Filliou

 

Passear pelas obras de Raul Mourão é um pouco como andar na rua: dá para ouvir a voz da cidade, sentir sua presença, tocar suas grades, suas casas, sua natureza sufocada; admirar seu futebol, seus Carnavais e seus artistas; aprender a conhecer seus cachorros, suas árvores, seus políticos, e todas as suas cores. O ateliê do artista (pode ser que de todo artista, mas de Raul Mourão em especial) é o lugar onde essa cidade para, e os encontros que ali acontecem sugerem que, talvez, seja também um ateliê para a cidade. Encontros programaticamente casuais, como o da máquina de costura e do guarda-chuva na mesa de dissecação, ao lado de um globo ocular malhando abdominais. O surrealismo de Raul Mourão é quase imperceptível, mascarado pelo acabamento impecável..

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TRAVESSIAS
Centro Cultural Bela Maré
Rio de Janeiro – 2011

 

 

Data: de 26 de novembro de 2011 a 18 de dezembro de 2011

Curadoria: Daniela Labra, Fred Coelho, Luisa Duarte

Artistas participantes: Alexandre Sá, André Komatsu, Chelpa Ferro, Davi Marcos, Eli Sudbrack (AVAF), Emmanuel Nassar, Filé de Peixe, Henrique Oliveira, Lucia Koch, Marcelo Cidade, Marcos Chaves, Matheus Rocha Pitta, Michel Groisman, Raul Mourão, Ricardo Carioba, Rochelle Costi, Coletivo Pandilla Fotográfica

Realização: Observatório de Favelas, Espiral, Automática

Fotografias: Quito

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