Aberto para balanço

por Frederico Coelho para a exposição Movimento Repouso

Desde 2010 Raul Mourão vem trabalhando com esculturas cinéticas. Sua pesquisa sobre materiais e movimentos trouxe uma nova rota estética para sua obra. Em uma trajetória marcada pelo ecletismo de meios e frentes de ação, Raul mergulhou nesse universo e se concentrou por um período em seus balanços. Suas últimas exposições exploraram as múltiplas possibilidades nessa relação entre a matéria bruta do aço e sua leveza através de sutis movimentos pendulares. Se antes sua obra podia as vezes encarcerar o olhar entre grades, a partir dos balanços ela passou a chamar o espectador para dançar.

Sua nova safra de balanços, feita especialmente para esta exposição, nos mostra como os temas e as formas dessas esculturas permanecem se ampliando em uma espécie de análise combinatória infinita. A engenharia do equilíbrio se torna cada vez mais difusa e lúdica. As formas ficam livres para quebrar uma aparência de contenção em prol de uma salutar dispersão de ideias. Isso ocorre porque, apesar da rigidez do aço cortem, elas surgem de desenhos feitos por Raul. Na origem dessas esculturas racionais e metálicas, há o traço livre e onírico da mão do desenhista. De certa forma, podemos enxergar nesses atuais balanços, diálogos internos com trabalhos anteriores dele, como as primeiras esculturas na exposição “Humano” (1993) ou os trabalhos de “Caderno de anotações”(2003). Em todos, vemos o traço do desenhista criando formas geométricas e, ao mesmo tempo, orgânicas, para depois ajustá-las à demanda de materiais não-maleáveis, como o metal.

Em MOVIMENTO REPOUSO, portanto, Raul permanece expandindo as possibilidades de sua pesquisa, porém com um novo elemento em jogo: a transitoriedade. Raul vive atualmente em Manhattan, Estados Unidos. O dia a dia em seu ateliê no bairro carioca da Lapa é substituído pelo ritmo frenético da “babilônia” norte-americana. Artista sempre atento e guiado pelas ruas, Raul rapidamente transformou as esquinas de Manhattan em suas. Com seu celular, capturou através de fotos os pontos cegos, os desvios do olhar, as aproximações das formas universais, transformando objetos e cenas do cotidiano urbano em pequenos microcosmos universais. São micronarrativas das falhas, das luzes, das cores, dos objetos. Suas fotos, ao lado dos atuais balanços, nos mostram que Raul volta a investir nos multimeios de exibição da obra, procurando novamente uma espécie de maior amplitude.

O artista que vive entre países, entre cidades, entre línguas, passa a por em xeque um espaço confortável de ação e precisa se adaptar ao componente híbrido que se instala nas suas obras e no seu olhar para o mundo. Uma espécie de esfacelamento das certezas impele Raul a reinventar referências e não separar sua vida cotidiana nas ruas (fotos) com seu trabalho reflexivo sobre a linguagem (os balanços). Neste momento, a duplicidade (de cidades, de meios) e a perspectiva fora de lugar das imagens fotográficas são indícios de um momento em que pesquisa e reflexão, ação e contemplação, se ajustam no espaço expositivo e dialogam de formas múltiplas com o público e entre si.

Em conversas antes de sua viagem para viver em Manhattan, Raul Mourão citava um nome para um projeto de trabalho durante a estadia inicial na cidade. O nome: Landing Project. Um projeto feito por quem está pousando em uma nova realidade. Talvez por uma relação imperceptível, a escolha do verbo repousar como título desta exposição alude diretamente ao projeto traçado ainda no Brasil. Pousar/repousar ideias, corpos, obras, vidas. Creio, porém, que aqui, o seu MOVIMENTO REPOUSO seja muito mais do que isso. Nesses dias de renovação à fórceps da realidade politica e social do país, evocar um Movimento que nos peça o repouso é um convite irrecusável. Não de esvaziamento, mas de renovação. Repousar os olhos sobre as obras, repousar as mãos sobre os balanços, repousar os dias sobre a arte, para, quem sabe, renovarmos as energias. Afinal, todo o menor movimento – seja do aço, seja dos homens – será sempre uma revolução.